Owen Wilson e Marion Cotillard em 'Meia-Noite em Paris", de Woody Allen
Intrigante como Woody Allen consegue fazer com que alguns protagonistas de suas comédias lembrem a ele mesmo. Às vezes penso que o seu texto leva a isso, mas também deve haver algo em sua direção a contribuir para que seus atores digam as frases na mesma velocidade, às vezes no mesmo tom de interrogação ou, como no caso de Owen Wilson de "Meia Noite em Paris", até com os mesmos trejeitos.
O fato é que Owen Wilson nem lembra Owen Wilson no filme... e isso é bom. Nesta deliciosa comédia romântica ele interpreta Gil Pender, um escritor que ganha a vida trabalhando para jornal enquanto tenta escrever seu primeiro livro. De visita por Paris, ele sonha vivenciar a porção boêmia e mágica da cidade, enquanto a noiva, os sogros e depois um casal amigo dela arrastam-no de um programa consumista e fútil a outro.
Em um passeio solitário, Gil descobre uma esquina onde pode embarcar em um automóvel de época que o leva de volta à Paris dos anos 20. Lá cruza com a nata da intelectualidade da época: o casal Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, Salvador Dali, Gertrude Stein - que acaba ajudando-o com seu livro -, Luis Buñuel, entre outros grandes nomes que se encontravam na cidade-luz à época. Encantado, ele passa a fazer todas as noites esta viagem no tempo com a qual todos sonhamos em algum momento da vida (voltar ao passado com o conhecimento do futuro).
Entre as novas amizades está a jovem interpretada por Marion Cotillard, que primeiro aparece como amante de Picasso e depois, de Hemingway, e a quem Gil acaba se afeiçoando. Com ela o escritor acabará refletindo e chegando a uma conclusão sobre a eterna nostalgia que intelectuais como ele têm de épocas antigas, que é um pouco a nostalgia que todos nós nutrimos por tempos que nos parecem melhor de viver do que o nosso próprio. Não deixa de ser uma fuga intelectual à eterna insatisfação humana.
O humor fica por conta de várias referências históricas com as quais Allen brinca no roteiro. Hilária, por exemplo, a cena em que Gil dá a Luis Buñuel a ideia para o que viria um de seus filmes mais cultuados: "O Anjo Exterminador". Engraçadíssima a a reação incrédula e apalermada do cineasta espanhol à ideia de um grupo de convivas não conseguir sair da sala de uma mansão onde se reuniu para um jantar - "mas por que eles não conseguem sair?", pergunta a toda hora, ao que Gil aconselha: "Simplesmente deixe a idéia crescer em sua mente", aconselha o escritor.
Acaba sendo um jogo divertido reconhecer aqui e ali referências a nomes e obras que tornaram-se expressivas na história da arte - ao menos para quem conhece um pouco dela.

2 Comentários
30 de dezembro de 2011 às 23h31 | Fernanda Miranda disse:
Post animador.... Porque Owen Wilson no elenco afasta qualquer chance de se ver um bom filme... Vou conferir...rsss
01 de janeiro de 2012 às 20h19 | Valdemir Pires disse:
Outra! Ótima! Valoriza o filme, convida a ver.