
Depois que assisti ao show de Paul McCartney em 1990 no Maracanã, nunca consegui escrever nada sobre aquela noite. Gosto de falar dos shows a que compareci, como se pode perceber por este blog, mas sempre senti dificuldade de escrever sobre o show do Paul. Talvez pelo meu espírito de autocrítica exacerbado, nunca achei que algumas palavras conseguiriam definir os sentimentos e a magia da experiência. Nunca me achei capaz de transmitir o que aquele show significou pra mim, então, para quê tentar? Sempre pensei assim.
Depois do último domingo, quando novamente vi Paul ao vivo, o sentimento foi o mesmo. Desta vez, no entanto, me permito escrever um texto que tem como menor objetivo descrever o show em si, mas sim tentar novamente exprimir a importância e repercussão da obra dos Beatles em minha vida.
Ver Paul McCartney de novo na minha frente empunhando seu baixo-violino Hoffner 1962 me trouxe de volta lembranças que me fizeram chorar, antes mesmo dele começar a tocar. Memórias afetivas de 1980, quando eu tinha nove anos e ouvia as coletâneas azul e vermelha dos Beatles dia e noite, acompanhando as letras naqueles encartes enormes dos discos de vinil. Se hoje leio, escrevo e converso em inglês com desenvoltura mais do que razoável, o motivo é a curiosidade que tinha em saber o que aqueles caras estavam cantando. Pois apenas as melodias não bastavam para saciar minha curiosidade.
Ainda na pré-adolescência, eu pegava o dicionário inglês-português de meu pai, sentava-me na mesa da sala e ficava horas e horas traduzindo avidamente as letras e acompanhando cada verso cantado ao mesmo tempo em que lia as palavras escritas, para aperfeiçoar minha pronúncia. Claro que as traduções eram muito toscas no início, mas serviram como embrião para meu aprendizado ao longo do tempo. Nunca tive aulas particulares de inglês e, mesmo assim, quando cheguei à quinta série, era o melhor aluno na matéria, pois havia aprendido o básico com os Beatles.
Ver Paul no domingo me fez lembrar meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) quando fiz faculdade de Rádio & TV na Unesp de Bauru. O tema de meu trabalho, uma série de programas radiofônicos, era ‘Paul McCartney - O Último Trovador’ e tinha como objetivo provar a natureza única das composições de Paul, que, na melhor tradição dos trovadores, gosta de contar histórias em suas canções, criando personagens invariavelmente solitários e marginais. No trabalho, procurei mostrar o quanto a música Eleanor Rigby é emblemática de seu estilo. Assim como em 1990, no último domingo Paul cantou Eleanor Rigby. E de novo foi difícil segurar as pernas. E as lágrimas.
Em 1998, dois dias antes da data de apresentação do meu TCC à banca examinadora, meu pai morreu, de infarto, sem nenhum aviso prévio. Meu amigo Rodrigo Viana telefonou para Bauru tentando desesperadamente desmarcar a tarefa, mas, como sempre deixo tudo para depois, aquela era a última data disponível e a apresentação não poderia ser adiada. Sendo assim, no dia seguinte ao enterro de meu pai, peguei o ônibus sozinho para Bauru. O ônibus que faz paradas em Boa Esperança do Sul, Jaú, Pederneiras e sei lá mais onde. Naquelas três horas de viagem até Bauru, fui rememorando meu pai e, ao mesmo tempo, pensando em como falar de Paul McCartney para meus professores. Quando, ao final da apresentação e da reunião de deliberação, me disseram que minha nota era dez, sorri sem vontade, agradeci e perguntei se já podia ir embora.
Desde então, memórias da obra dos Beatles e de Paul se misturam em minha mente com o dia da morte de meu pai. Mas nunca de maneira ruim. Hoje, olhando em retrospectiva, vejo que de alguma forma as canções me ajudaram a continuar seguindo em frente. Para Bauru e pela vida. Todo final de ano ainda me bate certa tristeza, porque meu pai não está festejando conosco. Mas, nos quatro ou cinco anos depois de 1998, era quase insuportável. E eu sempre me pegava no dia 25 de dezembro ou 1 de janeiro chorando sozinho na sala de casa, ouvindo discos solo de Paul McCartney. Com o tempo, ficou óbvio que as canções me ajudaram a passar por aqueles dias difíceis.
Ver ao vivo o show do cara que definiu tudo o que veio depois dos Beatles em termos de música, o "maior astro pop do planeta há 50 anos", como definiram várias matérias de jornais nos últimos dias, foi uma experiência única pela beleza de suas músicas e pela sua importância na história da cultura pop. Mas as características únicas da obra dos Beatles e de Paul me levam a crer que cada uma das milhares de pessoas presentes aos shows tem histórias bem parecidas com as minhas para contar. As lágrimas, os rostos fascinados, a histeria, tudo pode ser explicado por uma coisa chamada sentimento. Algo difícil de ser expresso em algumas palavras ou mesmo em melodias. A não ser quando se tem o talento de grandes poetas, músicos e trovadores. Ou de um Paul McCartney.




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