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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012

Paul McCartney, o último trovador

Terça, 23 de Novembro de 2010 às 11h59

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Depois que assisti ao show de Paul McCartney em 1990 no Maracanã, nunca consegui escrever nada sobre aquela noite. Gosto de falar dos shows a que compareci, como se pode perceber por este blog, mas sempre senti dificuldade de escrever sobre o show do Paul. Talvez pelo meu espírito de autocrítica exacerbado, nunca achei que algumas palavras conseguiriam definir os sentimentos e a magia da experiência. Nunca me achei capaz de transmitir o que aquele show significou pra mim, então, para quê tentar? Sempre pensei assim.

Depois do último domingo, quando novamente vi Paul ao vivo, o sentimento foi o mesmo. Desta vez, no entanto, me permito escrever um texto que tem como menor objetivo descrever o show em si, mas sim tentar novamente exprimir a importância e repercussão da obra dos Beatles em minha vida.

Ver Paul McCartney de novo na minha frente empunhando seu baixo-violino Hoffner 1962 me trouxe de volta lembranças que me fizeram chorar, antes mesmo dele começar a tocar. Memórias afetivas de 1980, quando eu tinha nove anos e ouvia as coletâneas azul e vermelha dos Beatles dia e noite, acompanhando as letras naqueles encartes enormes dos discos de vinil. Se hoje leio, escrevo e converso em inglês com desenvoltura mais do que razoável, o motivo é a curiosidade que tinha em saber o que aqueles caras estavam cantando. Pois apenas as melodias não bastavam para saciar minha curiosidade.

Ainda na pré-adolescência, eu pegava o dicionário inglês-português de meu pai, sentava-me na mesa da sala e ficava horas e horas traduzindo avidamente as letras e acompanhando cada verso cantado ao mesmo tempo em que lia as palavras escritas, para aperfeiçoar minha pronúncia. Claro que as traduções eram muito toscas no início, mas serviram como embrião para meu aprendizado ao longo do tempo. Nunca tive aulas particulares de inglês e, mesmo assim, quando cheguei à quinta série, era o melhor aluno na matéria, pois havia aprendido o básico com os Beatles.

Ver Paul no domingo me fez lembrar meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) quando fiz faculdade de Rádio & TV na Unesp de Bauru. O tema de meu trabalho, uma série de programas radiofônicos, era ‘Paul McCartney - O Último Trovador’ e tinha como objetivo provar a natureza única das composições de Paul, que, na melhor tradição dos trovadores, gosta de contar histórias em suas canções, criando personagens invariavelmente solitários e marginais. No trabalho, procurei mostrar o quanto a música Eleanor Rigby é emblemática de seu estilo. Assim como em 1990, no último domingo Paul cantou Eleanor Rigby. E de novo foi difícil segurar as pernas. E as lágrimas.

Em 1998, dois dias antes da data de apresentação do meu TCC à banca examinadora, meu pai morreu, de infarto, sem nenhum aviso prévio. Meu amigo Rodrigo Viana telefonou para Bauru tentando desesperadamente desmarcar a tarefa, mas, como sempre deixo tudo para depois, aquela era a última data disponível e a apresentação não poderia ser adiada. Sendo assim, no dia seguinte ao enterro de meu pai, peguei o ônibus sozinho para Bauru. O ônibus que faz paradas em Boa Esperança do Sul, Jaú, Pederneiras e sei lá mais onde. Naquelas três horas de viagem até Bauru, fui rememorando meu pai e, ao mesmo tempo, pensando em como falar de Paul McCartney para meus professores. Quando, ao final da apresentação e da reunião de deliberação, me disseram que minha nota era dez, sorri sem vontade, agradeci e perguntei se já podia ir embora.

Desde então, memórias da obra dos Beatles e de Paul se misturam em minha mente com o dia da morte de meu pai. Mas nunca de maneira ruim. Hoje, olhando em retrospectiva, vejo que de alguma forma as canções me ajudaram a continuar seguindo em frente. Para Bauru e pela vida. Todo final de ano ainda me bate certa tristeza, porque meu pai não está festejando conosco. Mas, nos quatro ou cinco anos depois de 1998, era quase insuportável. E eu sempre me pegava no dia 25 de dezembro ou 1 de janeiro chorando sozinho na sala de casa, ouvindo discos solo de Paul McCartney. Com o tempo, ficou óbvio que as canções me ajudaram a passar por aqueles dias difíceis.

Ver ao vivo o show do cara que definiu tudo o que veio depois dos Beatles em termos de música, o "maior astro pop do planeta há 50 anos", como definiram várias matérias de jornais nos últimos dias, foi uma experiência única pela beleza de suas músicas e pela sua importância na história da cultura pop. Mas as características únicas da obra dos Beatles e de Paul me levam a crer que cada uma das milhares de pessoas presentes aos shows tem histórias bem parecidas com as minhas para contar. As lágrimas, os rostos fascinados, a histeria, tudo pode ser explicado por uma coisa chamada sentimento. Algo difícil de ser expresso em algumas palavras ou mesmo em melodias. A não ser quando se tem o talento de grandes poetas, músicos e trovadores. Ou de um Paul McCartney.

Paul e eu, vinte anos depois

Segunda, 01 de Novembro de 2010 às 12h24

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Eu assisti ao show do Paul McCartney no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, em abril de 1990, quando ele tinha 47 anos e eu tinha 18. Neste mês, depois de se passarem 20 anos, verei novamente Paul ao vivo, agora ele com 68 e eu com 39, pois ele fez aniversário em junho e eu em setembro.

Nestes 20 anos, muita coisa mudou em nossas vidas. Apesar da pouca idade, naquele ano eu já conhecia a obra completa dos Beatles, de cor e salteado, e estava começando a me aprofundar na carreira solo de Paul e em seus discos com os Wings.

Apesar do conhecimento musical que tinha naquele tempo, de ser capaz de dizer de que disco era cada música dos Beatles que ele tocou no show, 20 anos fazem muita diferença no significado das canções. Essas duas décadas mudaram bastante a maneira como cada acorde e cada frase cantada soam quando batem em meu coração. E certamente cada canção tem um novo significado para Paul também, por tudo o que se passou em sua vida nesse tempo todo.

Em 1990, me lembro que Linda McCartney, o grande amor de sua vida, estava ali no palco, tocando teclado e percussão, fazendo companhia para Paul, como sempre fez desde o final da década de 60, quando se conheceram. Nos pouco mais de 20 anos desde que Paul e Linda começaram a namorar até o show no Maracanã, os dois gravaram juntos inúmeros discos e videoclipes e viajaram o mundo cantando e consolidando seu amor.

Naquele show de 1990, a música My Love não estava no repertório e eu fiquei triste por isso, pois é uma das mais lindas canções de amor já compostas. E foi feita para Linda McCartney. Na atual turnê, sem Linda por perto desde 1998, quando ela morreu vítima de câncer de mama, Paul voltou a incluir My Love em seu repertório.

Sinceramente, não sei como ele consegue cantar essa canção noite após noite sem que seu coração se parta em pedaços. Ou talvez cantar a música que fez para Linda o reconforte, traga de volta boas lembranças e o deixe um pouco mais em paz naqueles quatro ou cinco minutos. Cada um tem um jeito de sentir, uma maneira de se emocionar e o modo como seguimos vivendo pertence a cada um de nós e a mais ninguém.

Para mim, My Love também terá hoje o significado que nunca teria naquele ano de 1990, quando eu mal sabia o que era a vida. Assim como terão outro significado Yesterday e tantas outras canções que ele tocará. Eu e Paul dividiremos novamente neste próximo show no Brasil momentos de alegria e de dor, em canções imortais dos Beatles e de sua maravilhosa carreira solo.

Será um show muito emocional, por tudo o que cada canção representa e porque 20 anos na vida de um homem somam experiências demais, de vitórias e derrotas. Quando se ouve a trilha sonora de sua vida cantada na sua frente pelo músico genial que a compôs, é de se preocupar com a maneira como o coração vai reagir.

Mas eu vou. Vou com medo, mas vou embarcar novamente nessa viagem pelo tempo, pela vida, pelas canções, pelo amor e por todo o sentimento que mora em cada palavra, em cada acorde.

Depois de 1990, eu costumava dizer que minha vida nunca mais foi a mesma, porque vi Paul ao vivo. Após 21 de novembro deste ano, novamente alguma coisa vai mudar. Espero sobreviver. Assim como fizemos nos últimos 20 anos, mesmo que aos trancos e barrancos. Eu e Paul.

Quase 200 anos de solidão

Domingo, 22 de Agosto de 2010 às 04h29

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Em setembro, pouco mais de um mês depois de Araraquara comemorar 193 anos de fundação, eu completarei meus 39 anos de idade. Não sou nem o mais velho, nem o mais moço e muito menos o mais ilustre cidadão deste pequeno e confuso mundinho apelidado de Morada do Sol, pelo qual nutro a mistura mais homogênea de amor e ódio que se pode encontrar.

Mesmo sem reunir todas as qualidades necessárias para comentar sobre a cidade, ao receber a missão, me surpreendi pensando que vivi meus anos de vida aqui durante praticamente um quarto do seu tempo de fundação. Acho que Deus não vai querer fazer isso comigo, mas, se eu vivesse até os cem anos, somente nesta cidade, ao fim de minha vida, teria participado de praticamente um terço de todos os anos de existência de Araraquara.

Já tive fases de tristeza pensando em como esta cidade sempre acabou me segurando, apesar de tantos planos que fiz de ir embora. Sempre que penso na letra de Time, do Pink Floyd, particularmente no trecho que diz "esperneando em um pedaço de chão em sua terra natal, esperando por algo ou alguém que lhe mostre o caminho", lembro-me que nasci na Santa Casa, morei durante anos ali pertinho, na Rua Humaitá, entre as avenidas José Bonifácio e Feijó, e trabalhei durante oito anos a apenas alguns metros da Santa Casa. Hoje trabalho na Avenida Bento de Abreu, distante alguns quarteirões a mais de onde nasci e moro um pouco mais para cima, no Carmo. De qualquer forma, o quadrante de quarteirões que forma o pedaço de chão onde nasci, estudei e trabalhei a vida toda até hoje soma um raio de pouquíssimos quilômetros. Não sei se é pra chorar ou pra rir.

Passei a infância e boa parte da adolescência na Rua 9 e estudei até a oitava série (sinceramente nem sei que nome dão para o colegial hoje em dia) na Escola Antônio Joaquim de Carvalho, na praça Pedro de Toledo. Portanto, minhas lembranças de moleque estão concentradas naquelas redondezas. Havia as manhãs de sábado, quando acordava muito cedo para me vestir e esperar a hora de ir ao Estádio Municipal, onde treinava no Atlas, time de futebol dirigido por Armando Clemente. E fazia parte também da turma de futebolistas de rua que morava na Rua 9 e sempre desafiava a molecada da Avenida Espanha, onde eram disputados altos clássicos de gol caixão. Isso quando éramos o time visitante, pois na maioria das vezes, os jogos no meio da rua aconteciam na Rua 9 mesmo. Quando a modalidade não era gol caixão, o portão da minha casa fazia as vezes de gol, resistindo bravamente a centenas de boladas.

Hoje caminho na praça Pedro de Toledo e mal posso acreditar que sou a mesma pessoa que há tantos anos perambulou por ali. Naquele lugar deixei lágrimas, risos, esperanças e sonhos, vivendo desde a primeira paixão pela colega de classe até o medo de ter de enfrentar os moleques brigões depois das aulas. Lembro-me da piscina que existia na praça antes de a Avenida Portugal cortá-la ao meio, onde os aniversariantes eram jogados depois das aulas, antes de serem carregados até o playground com areia que ficava ao lado, para serem devidamente rolados, ficando com areia grudada até dentro das orelhas. A área com areia ficava logo ao lado do bar O Seresteiro, que depois deu lugar ao Bar Alternativo e onde atualmente fica o Espaço Cultural Paulo Mascia. Tudo próximo ao coreto, onde tantas serestas foram promovidas, justamente no dia do aniversário da cidade.

Foi no Anjoca, como era chamada a escola, que aprendi muito cedo a conviver com minha turma de amigos, mesmo ao custo de tantas chineladas que levei de minha mãe, por fugir das aulas e voltar para casa, porque tinha "saudade da mamãe". Foi naquela escola que experimentei grande vitória ao formar uma chapa com meus amigos e vencer a eleição para a direção do Centro Cívico, na oitava série. Naquele tempo, pensava em ser publicitário e exercitei meus dotes de vendedor ao dar o nome de S.T.A.L.L.O.N.E. à nossa chapa, em plena época em que estreava o filme Rock 4 nos cinemas da cidade. Eu e meu pai desenhamos muitos cartazes do Rock Balboa, que foram colados por toda a escola. Tivemos algo como 800 votos. A chapa que ficou em segundo lugar teve cerca de 60 votos.

Enquanto membros do Centro Cívico, nossa principal contribuição à escola foi promover o "som no intervalo". Levávamos um aparelho de som e colocávamos discos de rock a todo volume naqueles 15 minutos de "recreio", doutrinando a molecada para que ouvisse AC/DC, Iron Maiden e Led Zeppelin desde cedo. Quanto mais cara feia a diretora fazia, maior o prazer que experimentávamos naqueles doces 15 minutos de subversão. A diversão começava meia hora antes do intervalo, quando pedíamos licença às professoras para sair da sala para "arrumar o som do intervalo". "Eu sou do centro cívico, professora. Tenho que sair da aula", dizia. Não por acaso hoje sou jornalista. Se tivesse estudado mais, talvez tivesse uma profissão decente.

Eu e meus colegas nos divertíamos muito também nas aulas de Educação Física, no Estádio Municipal, lá naquele meu quadrante da cidade, pertinho de casa, próximo de onde aprendi a andar de bicicleta dando voltas no quarteirão, não muito longe da escola onde estudei e do hospital onde nasci. Uma das grandes vitórias da nossa turma de moleques caras-de-pau foi quando o saudoso professor Urias Braga Costa teve de se ausentar durante umas duas semanas e foi substituído por outro educador. Normalmente, nossas aulas consistiam em um pouco de exercícios na quadra que ficava ao lado do campo de futebol e depois um jogo de vôlei ali mesmo, disputado enquanto babávamos olhando aquele campão que não podíamos usar. Sem saber direito como funcionava a rotina de aulas, o professor substituto caiu no erro de nos perguntar qual atividade costumávamos fazer nas aulas. Não tivemos dúvida: "geralmente nós jogamos futebol de campo, professor". Nada contra o professor Urias, mas aquelas foram as duas semanas mais prazerosas nas aulas de Educação Física. Muitos de nós nunca tínhamos pisado naquele gramado bonito, muito menos jogado futebol ali. O sonho foi realizado.

A história da cidade é a soma das histórias de todos os moradores, que dormem, acordam, amam, se decepcionam, sonham e têm muitas vezes o coração dilacerado nestas ruas, algumas delas ainda de paralelepípedos e muitas pelas quais circularam os antigos ônibus elétricos. A história de Araraquara é também a de nossas vidas na cidade, que acabou segurando muita gente neste pedaço de chão. A mistura de amor e ódio que sentimos pela cidade é parecida com a que temos por um irmão ou primo muito próximo, porque não conseguirmos deixar de amá-la, mesmo conhecendo profundamente todas as suas mazelas.

Mesmo que muita gente seja segregada nesta cidade, que sempre pareceu sofrer de elitismo crônico e do que chamo "síndrome do sobrenome", pois muitas vezes se dá mais valor ao modo como as pessoas são chamadas do que propriamente ao que fizeram por aqui. Ainda assim, quem nasceu em Araraquara sabe que é difícil não amarmos essa fazendinha, mesmo que ela tenha nos tratado de forma injusta algum dia, pelo seu conservadorismo muitas vezes exacerbado. Porque as lágrimas e o suor de nossos rostos estão impregnados em cada centímetro desta terra. E nada nem ninguém poderá nos roubar essas memórias.

Ao escrever sobre Araraquara, lembro-me do livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, em que ele descreve a saga da família Buendía num vilarejo chamado Macondo, onde durante um século personagens obtêm vitórias e derrotas, conquistam amores e os perdem, por pura inabilidade em ser felizes, ainda que tenham passado por momentos bons em suas vidas. A saga de Araraquara reúne tantos e tantos clãs parecidos com os Buendía. Pois a solidão de que nos fala Gabo está dentro de nós e não podemos apagá-la totalmente, mas apenas aquietá-la um pouco, se tivermos sorte. Porque somos todos humanos, e nesta condição, nascemos e morreremos sozinhos. Até chegar essa hora, trabalharemos e tentaremos a felicidade a cada novo dia vivido na terra que nos escolheu.

Parabéns Araraquara, por quase 200 anos de solidão.

A última lição de José Saramago

Quarta, 28 de Julho de 2010 às 13h59

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Quando acontece de morrer uma figura da qual admiro muito o trabalho, me sinto dividido entre a vontade de escrever um texto em sua homenagem e a total incapacidade de fazê-lo à altura daquele que se foi. Meu quase patológico perfeccionismo, que a pressa do jornalismo ainda não me fez perder totalmente, me paralisa ante a ideia de escrever a respeito de figuras queridas, porque sempre acharei que o texto ficou aquém do que elas mereciam. O jornalismo pede pressa, mas, sem "deadlines", me sinto quase que na obrigação de fazer homenagens que estejam à altura do homenageado.

No caso do escritor português José Saramago, que morreu no mês passado, a simples intenção de escrever qualquer coisa a seu respeito com este pensamento em mente me paralisaria eternamente, pois nenhuma homenagem poderia estar à sua altura. Se existe uma coisa que o jornalismo me ensinou é que não tem nada de literatura e sim de objetividade, visando levar ao leitor a notícia, da maneira mais simples possível. Como diz a máxima do jornalismo, matéria boa é a que foi publicada. Ponto.
Voltando a Saramago, após muito refletir, me lembrei de que seus livros tinham a missão de traduzir para o leitor as nuances de sua própria alma, oferecendo um espelho para que cada um contemplasse sua natureza, desnudada da maneira mais fria e ao mesmo tempo mais vivaz pelo escritor. Em obras como Ensaio Sobre a Cegueira, Ensaio Sobre a Loucura e Intermitências da Morte, Saramago parte de situações inusitadas visando expor os sentimentos mais comuns do homem, ainda que menos nobres.
Ao lermos seus livros, enxergamos nossos instintos mais primitivos, aquilo que gostaríamos que se escondesse para sempre, mas que repentinamente vemos estampado nos relatos de Saramago, com fina ironia e infinita elegância. Um pouco como fazia Machado de Assis, outro escritor que nos pegou pela garganta e nos obrigou a virar o rosto para o espelho.
Em Intermitências da Morte, por exemplo, Saramago nos conta de um país onde as pessoas param de morrer. A partir daí, discorre sobre os problemas causados pela falta de mortes, descrevendo desde reuniões de donos de funerárias preocupados com seu futuro até a alta cúpula da igreja, igualmente insegura quanto ao crédito que teria dali em diante, já que seus principais produtos são entregues aos clientes apenas após a morte. No final, Saramago descreve a morte como uma Donzela, que resolve descer à terra e se apaixona por um músico de orquestra solitário, esquecendo-se definitivamente de seus demais afazeres.
Os livros de Saramago também nos fazem encarar com naturalidade a morte, como se fosse ela apenas mais um dos tantos defeitos que nós seres humanos temos de enfrentar no cotidiano, seja em batalhas interiores ou em lutas contra nossos semelhantes, igualmente dispostos a vencer. Assim, como o escritor português nos igualava a todos em seus romances, o mais certo seria encarar sua morte como o capítulo final de sua obra.
Ao morrer, Saramago provou mais uma vez que, por mais que nossos mais belos feitos aparentemente nos diferenciem uns dos outros, no final das contas, algumas de nossas mazelas são comuns a todas as pessoas. Com sua morte, Saramago nos mostrou, pela última vez, que somos todos iguais.

Cem Anos de Solidão e o mundo como deveria ser

Quarta, 26 de Maio de 2010 às 02h25

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Gabriel Garcia Marquez

É curioso como funciona a cabeça da gente. Quando lembramos certas épocas de nossas vidas, as memórias vêm selecionadas por uma espécie de filtro, que deixa passar alguns fatos que, na época, não pareciam tão marcantes. Mas que, anos depois, descobrimos que tiveram grande significado.

Muitas vezes lembramos quando estávamos lendo certo livro e conseguimos rememorar com perfeição os sentimentos, angústias e desejos que tínhamos na época. Lembro-me, por exemplo, que li Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, quando morava em uma república em Bauru, onde cursava Rádio & TV na Unesp. É difícil comparar bons livros, mas certamente este está bem lá no alto em minha lista de leituras preferidas. E no topo da lista de meio mundo, eu sei disso. Mas não dá para ser original após ler essa obra.

Voltando às memórias sem muita importância para mais ninguém, a não ser o próprio autor deste texto, tenho noção exata de que lia um pouquinho de Cem Anos de Solidão todas as noites antes de dormir e, em muitas madrugadas, meus sonhos eram povoados pelos personagens de Garcia Marquez. Era como se capítulos extras fossem sendo criados em minha mente durante meu sono. Ou talvez fosse o desejo inconsciente de nunca mais parar de ler aquele livro, vencendo o cansaço e todos os compromissos do dia-a-dia.

Na obra, são contados cem anos da história da família Buendía e seus agregados, que fundaram e sempre viveram na fictícia cidade de Macondo. Para além das desventuras dos membros daquela família, o que faz diferença na obra é a maneira como Garcia Marquez descreve cada passagem, montando as orações como um ourives, criando poesia em forma de prosa e fazendo de cada capítulo um poema em si mesmo.

No estilo literário conhecido como realismo fantástico, o autor nos conta histórias em que tudo é permitido. Existe lógica na narrativa, mas não existem regras, como a lógica dos sonhos. Talvez por isso mesmo as histórias acabaram invadindo minha memória nas madrugadas.

Guardo muitas passagens do livro com carinho. Mas talvez a que simbolize melhor a beleza do realismo fantástico de Garcia Marquez seja a que descreve o que ocorre durante os preparativos para o sepultamento do patriarca da família Buendía: "quando o carpinteiro lhe tirava as medidas para o caixão, viram, através da janela, que caía uma chuva de minúsculas flores amarelas. Caíram durante toda a noite sobre a aldeia numa tormenta silenciosa e cobriram os telhados e bloquearam as portas e sufocaram os animais que dormiam à intempérie. Tantas flores caíram do céu que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta e tiveram de varrê-las com pás e ancinhos para que o funeral pudesse passar".

No universo do genial escritor colombiano, personagens sofrem, lutam, vencem, são derrotados, ficam ricos, ficam pobres, conquistam amores e os perdem, por pura incapacidade de ser felizes. Mais ou menos o que acontece na vida da maior parte das pessoas reais. A diferença é que no mundo de verdade não caem pequeninas flores amarelas do céu quando um importante patriarca morre. Livros como Cem Anos de Solidão são tão importantes para a humanidade porque mostram que o mundo pode ter poesia, mesmo quando existe a dor.

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