No caminho entre a lavoura e a mesa do brasileiro, calcula-se que mais de 60% da produção de alimentos fique pelo caminho. Seja na colheita, no transporte, na forma de armazenamento ou na casa do consumidor final, o desperdício no País é tão grande quanto a produção de alimentos.
Em Araraquara não é diferente. Agricultores locais calculam que entre 10% e 15% do plantio fique no próprio campo.
Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), que centraliza o abastecimento e a comercialização de hortifrútis da região, os números chegam a 20% e, nos supermercados e varejões, calcula-se que o desperdício fique entre 10% e 20%, respectivamente.
Já o consumidor final manda para o lixo um terço de tudo o que leva para casa.
Em uma rede de varejões de Araraquara, por exemplo, das 4 toneladas de produtos comercializadas diariamente, cerca de 800 quilos, ou 20%, são desperdiçados. "Ou os produtos estragam ou são submetidos à avaliação dos clientes, que apertam ou experimentam para conferir a qualidade, danificando-os", lamenta Marcelo Costa, proprietário de quatro lojas em Araraquara e Matão.
Saída ecológica
O empresário conta que os produtos que não passam pelo controle de qualidade para consumo vão para a alimentação dos animais que ele mantém em uma propriedade rural. "Trabalhamos com produtos muito perecíveis e o calor da cidade também não contribui", acrescenta.
Em uma rede de supermercados, o desperdício pode chegar a 10% entre os alimentos perecíveis e embalagens danificadas. "Muita gente aperta o produto para conferir a qualidade", diz Milene Fontolan, gerente de produtos. As embalagens também são danificadas por consumidores, que abrem pacotes ou derrubam os produtos das prateleiras", diz.
Ela acrescenta que funcionários também perdem material na hora de armazenar, transportar ou colocar os produtos nas gôndolas. "A vantagem é que o giro de produtos é alto, o que evita que o desperdício seja ainda maior", conta a gerente.
Prejuízos
Em termos de prejuízo, Milene Fontolan, gerente de produtos de uma rede de supermercados de Araraquara, calcula que 2% do faturamento da empresa fica por conta do desperdício.
Dentro da rede, o desperdício só não é maior porque muitos produtos, como frutas e legumes, por exemplo, são processados na rotisserie da empresa. "Mas isto não é contado como reaproveitamento, já que as frutas bem maduras, por exemplo, são usadas em doces e ainda estão próprias para consumo", justifica.
800 quilos de alimentos são desperdiçados em uma rede de varejões de Araraquara diariamente. Isso representa 20% de todos os produtos comercializados no local
Perdas equivalem a 1,4% do PIB
Estimativa realizada pela Coordenadoria de Abastecimento da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo indica que as perdas na cadeia produtiva dos alimentos equivalem a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do País.
Segundo dados do Instituto Akatu, que trabalha pelo consumo consciente, 44% do que é plantado no Brasil perde-se entre a produção, a distribuição e a comercialização, sendo 20% na colheita, 8% no transporte e armazenamento, 15% na indústria de processamento e 1% no varejo. No consumo caseiro e hábitos alimentares, as perdas acumulam mais de 20%. No total, o desperdício significa algo em torno de 64%.
Perda começa ainda no campo
Dos 500 quilos de cenouras produzidos na propriedade da zootécnica e estudante de agronomia Maristela Rosseto, em Araraquara, pelo menos 50 são desperdiçados. Eles fazem parte das 39 mil toneladas de alimentos que vão para o lixo no Brasil todos os dias e da grande parte desperdiçada ainda nos campos.
"Geralmente não passam pelo controle de qualidade, que exige um tamanho dos legumes padronizado", lamenta a técnica, que, junto com o pai, João Pedro, produz ainda 100 quilos de beterraba semanalmente.
Eles estão na lista dos 322 agricultores cadastrados no programa de fornecimento de alimentos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento da Prefeitura de Araraquara, que mantém o Programa de Aquisição de Alimentos por órgãos públicos. Ele supre o Banco de Alimentos no qual a compra é feita diretamente dos produtores, com recursos do Governo Federal.
De acordo com Célio Dória, da Secretaria de Agricultura, o programa recebe R$ 137 mil mensais para a compra direta dos produtores. "O dinheiro que não é gasto tem de ser devolvido para o Governo. Por isso, tudo é planejado para não haver sobras", explica.
Descarte
Ao todo, são adquiridas em torno de 25 toneladas de hortifrútis mensalmente. Deste total, cerca de 15% são desperdiçados por falta de estrutura para armazenar e manufaturar os alimentos. Entre a compra e a manufatura dos produtos, a Secretaria calcula que 30% sejam descartados. O excedente, como folhas e cascas, é doado a agricultores para alimentação de animais.
"Recebemos um aditivo de R$ 1,7 milhão este ano", diz Dória, que pretende investir a verba na aquisição de mais 50% de produtos e adquirir câmaras frias para congelamento e resfriamento dos alimentos. De acordo com ele, o programa precisa de uma despoupadeira de frutas, assim como um tubo de congelamento. "Com estes equipamentos, o desperdício praticamente deixará de existir", garante.
Pelo programa, pelo menos 6 mil pessoas são alimentadas diariamente na cidade — alunos da rede municipal de ensino, 44 entidades sociais e o Restaurante Popular, onde a refeição é servida por R$ 2.
Sesi ensina a reaproveitar
De olho nos altos índices de desperdício, o Sesi São Paulo criou o Programa Alimente-se Bem em 1999. A unidade de Araraquara oferece as atividades, feitas em uma cozinha experimental itinerante.
Nelas, são dados cursos de aproveitamento integral de alimentos. "O objetivo do programa é evitar o desperdício, principalmente dentro de casa, com receitas simples e saborosas de reaproveitamento", explica a nutricionista Larissa Martins Tanus.
De acordo com ela, muita gente se surpreende com os resultados e com a quantidade de alimentos que podem ser aproveitados integralmente. Participam das aulas alunos de todas as classes sociais.
"O desperdício é um problema geral e não somente dos menos favorecidos. É impressionante o que pode ser aproveitado dentro da culinária", observa.
Cascas, sementes, talos, entre outros, são usados em pratos fáceis, saborosos e nutritivos, sem preconceito. "Preconceito é o desperdício e não o reaproveitamento", defende a nutricionista.
O resultado deste trabalho está em um livro de receitas do Sesi São Paulo.
Salpicão verde usa polpas e talos
A produção de alimentos, como bolinhos e tortas, com partes dos produtos geralmente desperdiçadas é simples, mas não é um hábito da população.
Para incentivar as donas e donos de casa a adotarem esta prática, a nutricionista Larissa Martins Tanus dá uma receita de salpicão verde bastante nutritiva, rápida e prática de se fazer. E para entrar, para valer, no cardápio dos araraquarenses preocupados com a saúde, o bolso e o meio ambiente.
Ingredientes
Os ingredientes são: 5 xícaras de chá de casca de melancia ralada; sal a gosto; 260 g de peito de frango; 1½ xícara (chá) de salsão cortado; ¼ xícara (chá) de cebola; 2 colheres (sopa) de salsa; 1 limão; ½ xícara de chá de maionese.
Modo de preparo
Para preparar, comece lavando a melancia com uma escovinha. Corte em pedaços e descasque.
Depois, rale a casca da melancia em ralo fino e coloque para ferver em água e sal, até que fiquem macias. Reserve.
O próximo passo é cozinhar o peito de frango em água e sal. Quando estiver frio, desfie e reserve.
Agora, pique a salsa e corte em fatias o salsão e a cebola. Junte tudo e misture à casca de melancia ralada e aferventada e ao peito de frango desfiado.
O tempero deve ser feito com o sal, o limão e a porção de maionese.
Leve à geladeira e aguarde pelo menos 20 minutos para servir. Uma dica é usar atum em vez de peito de frango.
Partes aproveitáveis
Alos
4couve-flor, brócolis e beterraba;
Sementes
4abóbora, melão e jaca;
Cascas
4batata-inglesa, banana, tangerina, laranja, mamão, pepino, maçã, abacaxi, berinjela, beterraba, melão, maracujá, goiaba, manga, abóbora;
Folhas
4cenoura, beterraba, batata-doce, nabo, couve-flor, abóbora, mostarda, hortelã e rabanete;
Entrecascas
4melancia e maracujá;
Outros
4nata;
4pés e pescoço de galinha;
tutano de boi.
Família beneficiada
Juliana da Silva Vieira, de 24 anos, está desempregada e grávida do terceiro filho. Moradora do bairro Santa Marta, Zona Sul da cidade, ela é uma das beneficiadas pelo programa Banco Ceagesp de Alimentos, que distribui o excedente dos produtores para 250 famílias carentes de Araraquara. Os alimentos — entre 6 e 8 toneladas — não passaram pelo controle de qualidade do comprador e iriam para o lixo.
