Lembro-me perfeitamente de que, após ler a matéria "Motuca está há sete anos sem registro de assassinatos", ainda com a Tribuna nas mãos, cogitei de fazer da notícia o tema de minha coluna. Fuçando agora nos arquivos, observo: era uma sexta-feira, 30 de setembro. Não recordo o motivo, deixei o projeto de lado. A informação, vale o registro, quando da divulgação do dado, não deu conta do sumiço de um homem, desaparecido desde maio.
Esta semana, menos de um mês após a virtuosa chamada, a cidade registrou seu primeiro homicídio desde 2004. O corpo do trabalhador rural Manuel Antônio Garcia, de 50 anos, foi encontrado esquartejado e enterrado em uma fazenda do município. Durante um baile de forró, teria acontecido uma briga; depois da confusão, Garcia tentou fugir, mas foi alcançado pelos três agricultores, presos na segunda-feira passada, que supostamente o assassinaram. A polícia ainda aguarda o resultado da perícia para saber se a vítima morreu com golpes de faca ou pancadas.
Com pouco mais de três mil habitantes, Motuca, talvez inconscientemente, mesmo sem análises mais profundas, como o tamanho da população, significava para mim um refúgio de paz, terra de uma resistência em repouso, sossegada, contra a violência sem limites, desenfreada, tantas vezes gratuita. Uma espécie de utopia. Uma mensagem quase silenciosa, estado de vigília, "é possível".
Não sei, diante deste fato especificamente, se é o caso de encontrar "culpados invisíveis", a desigualdade, o tráfico, o sistema. Pode ser uma situação isolada, de teor passional, por exemplo. Não importa. O efeito de tranquilidade duradoura, aspirando à permanência, à perenidade, está desfeito. É hora de buscar um novo símbolo. É hora de, recuperando o escritor italiano Italo Calvino, "procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço".
* é jornalista
rodrigobrandao@tribunaimpressa.com.br

1 Comentário
02 de novembro de 2011 às 19h45 | João Ricardo disse:
Sr. Rodrigo Brandão,infelizmente este caso não aconteceu em terras de Motuca,e sim no município de |Araraquara, pois o assentamento 3 e assentamento 6 pertecem ao município de Araraquara. Só não sei porque a polícia não encaminhou o caso para Araraquara, esta é a minha pergunta, também estou indignado. Será que as coisas ruins não podem acontecer no município de Araraquara e sim tendo que acontecer em municípios de pequeno porte?