Raúl Castro contava 27 anos no primeiro dia de 1959, data do desmonte do regime ditatorial de Fulgencio Batista pela Revolução Cubana. Seu irmão, Fidel, foi presidente da ilha por nada menos que 47 anos. Entregou o posto a Raúl em agosto de 2006. Daqui a cem anos, qualquer olhar pela História vai notar rapidamente que uma ditadura foi derrubada para que uma outra fosse instalada. Ainda assim, se esse mesmo olhar, paralelamente, se debruçar sobre as políticas externas adotadas pelos Estados Unidos, sobretudo em relação à América Latina, e depois, a partir da década de 70, também em relação à região do Oriente Médio, vai entender que o "castrismo", diferente de todos os outros ambientes totalitários, terá sentido e explicação (sei dos riscos de efetuar tal afirmação), embora seja impossível justificá-lo, sustentá-lo como argumento coerente em qualquer debate sério.
Noticiada anteontem, a decisão do Partido Comunista Cubano (PCC) — hoje liderado por Raúl, que conta 80 — de limitar a uma década o tempo máximo de permanência em cargos do poder, mais, ou muito mais do que permitir renovação, configura-se como grande passo para o início do processo de democratização da ilha. No Brasil, FHC, mudando as regras do jogo com o jogo em andamento, ficou oito anos; Lula ficou mais oito. E dificilmente Dilma não terá os seus oito. A máquina é mortífera. E há um detalhe, se consumada a previsão lógica: seriam 16 anos consecutivos de PT.
A perpetuação do poder não é um mal do século passado. Começou naquela cena de "2001: Uma odisseia no espaço", em que um macaco descobre, com um osso, que é capaz de impor e dominar. E atravessa a História em dinastias, reinados, famílias. A ambição desmedida pelo poder está em "Macbeth", de Shakespeare. Cuba pode prosseguir sua trajetória de resistência, e recuperar a ternura perdida. O idealismo de coletividade, inclusive, se torna mais consistente, ou só se torna consistente, quando permite a rotatividade de líderes e mentes.
* é jornalista e publicitário
rodrigo.brandao@tribunaimpressa.com.br
