Um índio velho casou-se com uma índia jovem, que, após traí-lo com o irmão dele, cunhado dela, cortou a perna do marido e depois o matou. Temos quase um enredo de William Shakespeare, o autor que inventou o humano, de acordo com o crítico literário norte-americano Harold Bloom.
Por um instante, esqueçamo-nos do Velho Mundo, e da América moldada pela Europa: trata-se de um mito tupi-guarani. Agora, o desfecho: comovidos, os deuses teriam transformado o ancião em estrelas. É o que enxergam, ao olhar para o céu, os remanescentes da tribo. A perna direita aparece pela metade; a esquerda conta com as "nossas" Três Marias na altura do joelho.
A astronomia guiando embarcações por enfurecidos mares nunca "dantes" navegados, conquistas territoriais, impérios se estendendo, prosperidade econômica.
Com as estrelas, índios previam mudanças climáticas, que interferem na caça, pesca e lavoura; evocavam espíritos nelas inscritos; mediam a passagem do tempo, contavam as horas à noite. Germano Afonso, astrônomo do Museu da Amazônia, doutorado na França, tem recolhido estrelas para preservar a tradição indígena, como contraponto à orientação ocidental.
É estranho, para não escrever contrassenso, que tantas escolas brasileiras insistam em perpetuar o Halloween, em 31 de outubro, apesar de nossa pouca relação com as bruxas, quase sempre imposta por Hollywood. Como escreveu Jim Morrison em "The End" ("O Fim"), "The West is the best" ("O Ocidente é o melhor").
Para fins poéticos, resgatando Oscar Wilde, a sinceridade não é o mais apropriado dos ingredientes. Uma cultura não encerra outra. Para uma estrela brilhar, uma outra não precisa se apagar.
Quarta, 22 de Fevereiro de 2012 às 06h53
