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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012

“Nós, os vivos” (3)

Sexta, 16 de Julho de 2010 às 03h00

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Os desenhos de Ana Teixeira, no seu conjunto "Nós, Os Vivos", dizem respeito ao tempo, ao seu fundamento. Não o tempo medido, que usamos para pagamento de salários. Falam do outro tempo, aquele que se dilata e se comprime.


Nos dias de hoje, o tempo do salário prevalece. No trabalho de um artista ele não interessa, ele até atrapalha.


Artista não tem salário. Vive no ócio, no meio do nada, esperando uma sugestão para que revele alguma coisa: o estranho misturado a algo lógico.


Mas o estranho se tornou tão banal que o artista tem que mudar de ideia para que a arte se manifeste como geradora de conhecimento, através de novas experiências, do estímulo aos sentidos. Sabemos que na arte as idéias vêm por revelação ou instrução.


O desenhista pode usar seus instrumentos para revelar o absolutamente natural, muitas vezes mostrar o óbvio. Estou falando da verdadeira importância da arte como instrumento do conhecimento, do entretenimento.


"Nós, os Vivos" diz respeito à morte, de certo modo. No sentido de que a morte é o que é imediatamente simétrico. É um fator que dá sentido a vida, como o sinal matemático + (mais) dá sentido ao - (menos), assim, tão simples.


Os significados se multiplicam quando as cenas desenhadas por Ana são colocadas lado a lado a um poema, por exemplo.


O desenho de uma mulher que nos observa sugere uma história:

"When lovely woman stoops to folly"
When lovely woman stoops to folly,
And finds too late that men betray,
What charm can soothe her melancholy,
What art can wash her guilt away?
The only art her guilt to cover,
To hide her shame from every eye,
To give repentance to her lover
And wring his bosom, is—to die (O.Goldsmith)

Escrever sobre desenhos é como olhar para o leito de um rio seco e enchê-lo de água. O leito do rio é o registro do rio, o desenho do rio. Colocar água imaginária nesse leito-história do rio é alterar o que está ali, mostrar a vida que o rio pode ter com água literária.


Um movimento de vida a mais, mover a água em direção ao mar, vazante e cheia do rio.
Quando escrevemos sobre desenhos tratamos do exagero, do excesso. Colocamos água turva onde já existe água imaginária. Água imaginária é mais bela, cristalina. Não é dor, é fingir dor, é fingir a morte, fingir o tempo dilatado ou comprimido e modificá-lo por nossa própria conta.

“Nós, Os Vivos” (2)

Sexta, 02 de Julho de 2010 às 03h00

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No conjunto dos 11 desenhos de Ana Teixeira - "Nós, Os Vivos" ou "Nós, Os Mortos", tanto faz - percebemos em um deles a presença de um cubo distorcido em perspectiva, visto em diagonal.
Dentro do cubo, o desenho de um menino sentado num velocípede. Lembramos de Picasso. Das pinturas de Picasso do seu filho Pablo quando jovem.


O cubo, um recurso caro a Francis Bacon. Um recurso do desenho, da pintura, da composição.
O cubo abriga e destaca a figura principal. Refere-se a um protagonista, um reforço adicional, as aspas.


Ou não poderia ser nada disso se você não conseguisse se lembrar dos retratos de Pablo, pintados e desenhados por Picasso, ou de Francis Bacon; ou não soubesse do cubo e da sua história, sua possibilidade de medição em vetores, sua ascendência natural.


O cubo destaca um dos elementos no desenho, mas é ao mesmo tempo um elemento independente, com antepassado matemático, sua referência lógica.


Confere ao desenho dois instantes de leitura, dois momentos ou três, um terceiro, dialético.
Quando desenhado com um desenho dentro, nos leva a prestarmos mais atenção: esse pequeno quadro com moldura amadeirada com um desenho de um cubo com um desenho dentro está agora em evidência.


Um grifo, um sinal mais forte se olharmos para o cubo como aspas de um discurso. Propositadamente ajustado para compreendermos que no desenho o que importa não é somente o conteúdo, às vezes o nada induzido, às vezes um detalhe, uma figura. O que importa é tudo. A estrutura, os elementos, o tempo - que nos prende para que possamos apreciar melhor a história, o enredo, o desenrolar do conto ou crônica.


A introdução a um pequeno grupo de desenhos engendra sua "desintrodução". Os acontecimentos relatados nos desenhos são "desacontecimentos".


Desenhar é um verbo conjugado pelo avesso.


O registro figurativo, mimético, ao ser manipulado serve a reconstrução da realidade em discurso, embute um enredo simples ou complicado.


Nada é real ou tem o seu uso certificado. Nos leva ao ócio lavorativo, ao abandono do tempo de fato.


O tempo que serve a um instrumento de medição em horas, minutos, segundos e que se associa a um valor não funciona aqui. O tempo não serve para que o usemos. É o outro e ao mesmo tempo.


Cada desenho, "desacontecimento", nos leva ao destacamento da realidade objetiva e nos encaminha para um território onde o tempo se dilata ou se comprime, de acordo com a necessidade, de acordo a extensão do discurso a ser lido.

‘Nós, Os Vivos’, de Ana Teixeira

Sexta, 18 de Junho de 2010 às 03h00

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A parede onde estão pendurados os desenhos de Ana Teixeira é branca, lisa, caiada.
Branca cor da neve ou gelo. Branco um pouco acinzentado, cor líquida, cor da superfície do cérebro.


As situações dos desenhos de "Nós, Os Vivos", ou poderia ser "Nós, Os Mortos", tanto faz - estamos todos mortos de vez em quando - as situações ou ‘desacontecimentos’, são construídos como pequenos atos, como os do teatro. Não como no teatro de Beckett, por exemplo, mas como no de Harold Pinter ou Pina Bausch.


Atos fragmentados, curtos. Guardam certa complexidade, expressam situações de comédias ou dramas, oníricas, às vezes absurdas, mas sempre poéticas.


Poesia em versos irregulares, como andar num rio raso cheio de pedras, a água fria. Tropeçamos às vezes.Os desenhos agem como carimbos, carimbos que se imprimem na superfície lisa, irregular do cérebro, carimbos de memória.


Não se dissolvem mais. Ficam ali impressos, testemunhados.


Os desenhos são pequenos, mas gritos, não sussurros. Tamanho não é documento.


Relatam desacontecimentos, a grafia das palavras em linhas. Ana Teixeira desmonta as palavras em fios de desenho, o fio das letras são desenovelados das palavras e reconstruídos no desenho, notamos a paciência do artesanato. O que nasce para arte não é artesanato.
Os quadros estão tortos na parede, reagrupados numa área maior de um quadrado imaginário; molduras finas amadeiradas prendem as cenas.


Instantes fixados como atos que nos contam histórias de nós mesmos, mesmo não tendo vivido essas histórias. Quem já viu um hipopótamo zelando por noivos a caminho da noite de núpcias, ou uma mulher a nos mostrar a genitália numa pose relaxada onde seus cabelos se unem ao rabo de um gato, para que tantos animais?


Os desenhos estão interligados, os significados e as intrigas se multiplicam quando os vemos ali, juntos, arrumados como numa parede de um casarão antigo, como num cenário do teatro de Pirandello, ou seria Henry James.


Ao uni-los, interpretá-los como fazendo parte de um conjunto, de uma mesma história, notamos personagens que se repetem pelas semelhanças. Funcionam como ilustrações de um enredo. A história de personagens familiares é a história de muitos de nós, uma família burguesa italiana ou húngara, ou paulistana, por exemplo.


"Nós, Os Vivos", de Ana Teixeira, estão para sempre carimbados na nossa memória, não se dissolvem ou se desgrudam com o tempo, como a música de Strauss, ou cantigas de ninar.
A Exposição de Desenhos de Ana Teixeira "Nós, Os Vivos" está na Galeria Baró Barra Funda, em São Paulo. Site http://barogaleria.com.

Sangue de nervos

Sexta, 21 de Maio de 2010 às 03h00

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Zed Nesti retira a capa do grafite dos lápis que usa para desenhar. Joga fora. Essa capa de madeira é a cobertura de proteção que impede que o carvão se rompa ou quebre quando estamos desenhando.

Esse fato faz com que o carvão fique mais perto da mão do desenhista. Aproxima o carvão dos nervos, das veias dos dedos.


Quando aperta o pequeno bastão sujo, empoeirado, os nervos dos dedos sentem o carvão. Ele fere o dedo. Um pouco do sangue desse ferimento escorre para o papel e se mistura ao pó escuro, seco, amassado sobre a cor cinza do papel.


Segue-se a espera para que o sangue coagule, seque. Percebemos uma mudança de cor. O sangue seco tem a cor do desenho. Diz estar desenhando com os nervos.


Não os nervos descontrolados, aqueles que ficam soltos, esparsos, faiscando sem faíscas, carregados, ruins.


Refiro-me aos outros nervos, escolhidos, aqueles enfeixados em grade, em trança, domados, frios.


A exaustão, a fricção do carvão faz com que escorra também dos nervos um sangue. Zed recolhe a seiva numa xícara. Segue-se a paciente espera que para que seiva seque, empedre.
Já seca, quebra a xícara com a matéria branca seca dentro e usa o pó nos desenhos.


O carvão é vivo. Quando manipulado por quem não consegue secá-lo o desenho fica ruim, frouxo. Existe desenho frouxo assim como carvão que não desenha, nervo que não sente, sangue amarelo.


Tudo começa com uma vibração. Um mantra lá bem no fundo, surge, vibra, aparece de novo. Diz antes da ordem para desenhar o que é para ser desenhado e o jeito, a maneira.


Quando se desenha um retrato parte-se de dois princípios: o que se parece ao que deve ser e o que ninguém vê, só sente. O engenho está no fazer-se sentir repetido. Se se faz sentir repetido o retrato vive, senão ele morre, o papel uma hora vira lixo, apodrece úmido. O retrato é ruim.


Quando o retrato é bom ele permanece na parede, no porta-retratos, na nossa memória. Faz rir e chorar, prestar atenção, vontade de tê-los, já que temos vontades de ter tudo, de comprar e vender tudo.


Diz o poema: "as coisas que não existem são mais bonitas"* . Então por que o retrato, o registro de um ente vivente?


É uma cartilha de instrução do conhecimento pelos sentidos, um mapa da pessoa. Talvez esteja tudo ali se imaginarmos.


São como letras desfiadas de uma descrição, uma fábula biográfica que começa, apresenta, um cartão de introdução a uma história.


Diz o poema: "O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.


Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.


Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada. Acho que o nome empobreceu a imagem".*


Os retratos sem nome são como cobras de vidro. O retrato vem de gente, de corpos e almas.
Quando damos nomes aos retratos o nome empobrece a imagem. Zed dá aos retratos números, esconde os nomes.


Cobra de vidro é mais do que enseada.
* Poemas de Manoel de Barros

Bia Ia ou Beatriz Bittencourt

Sexta, 26 de Fevereiro de 2010 às 13h24

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Eleanor anda pela sala de um lado para o outro. Caminha pela janela. Detêm-se por alguns instantes observando as pessoas lá em baixo que andam pela calçada, algumas atravessam rapidamente a rua. Pequenos seres que Eleanor examina, divaga sobre.

Volta para seu trajeto na sala, anda pelo tapete, sente o som oco dos sapatos que fere o tapete.

Ela já pensou em morrer para nascer de novo. Não consegue aquietar-se. Somente com exercícios de meditação, todos os dias, todas as noites. Ela não fuma.

Eleanor é um armário. Ela me disse que dentro dela está cheio de gavetas. Como aquele quadro do pintor espanhol.

Mas as gavetas não se abrem totalmente. Ficam por baixo da sua pele, lá dentro.

Na pele esbranquiçada duas andorinhas tatuadas, grandes. Tatuadas no ombro, uma em cada ombro. Simétricas, como as do tapete.

No tapete de Eleanor, que ela pisa e maceta com volúpia e ódio vemos estampadas duas andorinhas. As mesmas dos ombros de Eleanor. Ela desenha. Rabisca.

Fechas os olhos, inclina o corpo e espera. Um ruído, um vapor.

Sacode o corpo. Tenta imaginar o que tem dentro das gavetas.

Eleanor leva sempre consigo um bloco de papel cinza, lápis e apontador.

Um apontador com hélices de ventilador. Nas páginas de cor cinza, amassadas nas bordas, histórias intermináveis que ela diz vir desses compartimentos, dessas gavetas de memória. Um dia ela joga tudo fora, tranca as gavetas e não deixa sair de lá mais nada, me confessou.

Ramiro

Dentro de um guarda roupa, o terno preto de listras invisíveis ao lado de 12 camisas iguais, pretas de botões pretos acostumam-se aos olhos.

Ramiro só usa seu terno quando vai a funerais. De dia, seu terno se torna azul de listras finas e brancas.

No final da tarde, o pouco sol torna seu terno e o do defunto quase um marrom cheio de azul.

Ramiro tem mania de cortejos e funerais, visita ao menos um por dia. Seja lá quem for o defunto. Chora, por detrás de seus óculos escuros. E cada gota de lágrima que pinga, seu terno muda de cor. Depois Ramiro toma café.

Certa vez, em certo funeral, Ramiro conheceu Arnaldo. Arnaldo estava vestido de barbas longas, mas bem alinhadas.

Atrás de sua barba, sua carinha rosada sorria por só estar. Seu terno também era azul. Não como o de Ramiro, com listras brancas. Era um azul que se confundia com o céu daquele dia.

Arnaldo frequentava funerais. O silêncio e o timbre do vento que atravessava as lápides era o único que permitia Arnaldo ouvir musica. Tinha a ver com um problema adquirido. Nesse dia, ele ouvia a música sobre um foguete prateado.

Tão logo, viraram parceiros. Cada um no seu azul.

Cada azul em seu cigarro aceso. Um livro, uma nota aguda e o vento cortando a serenidade do ar com uma espada.

Nunca chegavam muito perto um do outro, nunca trocaram uma palavra.

Mas os funerais e cafés se tornaram frequentes. Pensavam em conversar sobre tantos assuntos, Yves Klein, os Smurfs, Caribe, Picasso, balas de anis, o céu de Paris.

Mas o silêncio era a mais clara e bonita comunicação entre eles.

O último funeral que Ramiro cortejou, foi o de Arnaldo. Naquele dia, o timbre das lápides era como o ranger de dentinhos.

A cara rosa de Arnaldo olhava para o céu através da janela do caixão. Sua fita do Sonic Youth arranhada tocava a mesma música, e os foguetes prateados alçavam voo levando Arnaldo para o céu.

O céu azul escuro estrelado da cor do terno de Ramiro, cujas listras se confundiam em meio aos galhos da seringueira. Azul do infinito.

(Bia Ia ou Beatriz Bittencourt é uma das principais artistas da atualidade, vive em São Paulo. No intervalo de um desenho, uma escultura, um bordado, trabalha na MTV. A primeira parte deste conto é uma homenagem e introduz a segunda, que foi escrito pela Bia).

Carlos Rezende é arquiteto e artista plástico e escreve quinzenalmente à sextas nesta coluna

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