Os desenhos de Ana Teixeira, no seu conjunto "Nós, Os Vivos", dizem respeito ao tempo, ao seu fundamento. Não o tempo medido, que usamos para pagamento de salários. Falam do outro tempo, aquele que se dilata e se comprime.
Nos dias de hoje, o tempo do salário prevalece. No trabalho de um artista ele não interessa, ele até atrapalha.
Artista não tem salário. Vive no ócio, no meio do nada, esperando uma sugestão para que revele alguma coisa: o estranho misturado a algo lógico.
Mas o estranho se tornou tão banal que o artista tem que mudar de ideia para que a arte se manifeste como geradora de conhecimento, através de novas experiências, do estímulo aos sentidos. Sabemos que na arte as idéias vêm por revelação ou instrução.
O desenhista pode usar seus instrumentos para revelar o absolutamente natural, muitas vezes mostrar o óbvio. Estou falando da verdadeira importância da arte como instrumento do conhecimento, do entretenimento.
"Nós, os Vivos" diz respeito à morte, de certo modo. No sentido de que a morte é o que é imediatamente simétrico. É um fator que dá sentido a vida, como o sinal matemático + (mais) dá sentido ao - (menos), assim, tão simples.
Os significados se multiplicam quando as cenas desenhadas por Ana são colocadas lado a lado a um poema, por exemplo.
O desenho de uma mulher que nos observa sugere uma história:
"When lovely woman stoops to folly"
When lovely woman stoops to folly,
And finds too late that men betray,
What charm can soothe her melancholy,
What art can wash her guilt away?
The only art her guilt to cover,
To hide her shame from every eye,
To give repentance to her lover
And wring his bosom, is—to die (O.Goldsmith)
Escrever sobre desenhos é como olhar para o leito de um rio seco e enchê-lo de água. O leito do rio é o registro do rio, o desenho do rio. Colocar água imaginária nesse leito-história do rio é alterar o que está ali, mostrar a vida que o rio pode ter com água literária.
Um movimento de vida a mais, mover a água em direção ao mar, vazante e cheia do rio.
Quando escrevemos sobre desenhos tratamos do exagero, do excesso. Colocamos água turva onde já existe água imaginária. Água imaginária é mais bela, cristalina. Não é dor, é fingir dor, é fingir a morte, fingir o tempo dilatado ou comprimido e modificá-lo por nossa própria conta.

