Tem determinados lugares desta cidade onde me perco. Não há placas de sinalização, nem indicativas e muitas ruas não têm nomes. Quer dizer, têm. Mas faltam as placas. Quando sigo pela 13 em direção à 36 é comum atravessar avenidas que não sei quais são. Quando mergulho por dentro do São José, região de minha infância, olho para cima e me sinto no vazio. Em que rua estou? Às vezes, preciso andar duas ou três quadras para me encontrar.
Domingo passado, tinha marcado um almoço com minha mulher às 13 horas. Ela vinha da Fonte, apanhou a 36 e, a certa altura, perdeu a entrada para o Carmo, entrou uma rotatória adiante. Seguiu imaginando que poderia entrar à esquerda e reencontrar a 13, mas não, a avenida foi se afastando e a certo momento, ela não tinha a mínima ideia onde estava.
Nem havia placas nas quais se reconhecesse um nome familiar. Chovia e ela não tinha a quem perguntar. Parou e ficou à deriva, se é que se possa estar à deriva nas ruas, na própria cidade.
A sensação era de sonho. Ela sentia que estava perto. É uma coisa instintiva. Em plena cidade, mas era como se estivesse em meio do mato, sem saber se deveria ir para a frente, para a esquerda ou direita.
Ficou parada até avistar um entregador de gás de emergência. O homem chegou, apertou uma campainha, entregou o gás e então minha mulher se aproximou, pediu a informação;
— Melhor me seguir, senão você se perderá ainda mais, respondeu, gentil, o jovem.
Ele seguiu, ela atrás. Viravam para a direita, para a esquerda, ela ficou assombrada, não tinha dado todas aquelas voltas. Mistério.
Em que parte da cidade estariam? Incrível a sensação de estar perdidos em nossa cidade, no lugar em que nascemos, crescemos, sempre frequentamos.
Estará Araraquara tão grande assim? Ou era um sonho, imaginação? A minha sogra estava ao lado, imaginava reconhecer uma casa (aqui deve ser minha cabeleireira), outra (aqui deve morar uma amiga, a Heloisa, ex-Macedo), depois via que não era, ambas estavam perdidas.
Estariam em outra cidade? São Carlos, Matão, Catanduva, Ibaté, Orlândia, Cedral? Como? Não tinham andado tanto. Nem por um momento sentiram pânico, apenas procuravam lugares familiares, placas. Achavam até uma aventura. Perdidas no espaço. Era curiosa a sensação. Perder-se sem bússolas, sem GPS, sem orientação, sem placas. Seguindo aquele entregador de gás que andava e andava e andava.
Para onde ele estaria a levá-las? E se fosse um sequestrador? A chuva caia, granizo batia no teto do carro, barulho infernal, pouquíssima visão. Súbito, o entregador de gás apontou uma avenida dupla:
— Sigam em frente, sairão no Der.
Elas seguiram, se reencontraram, logo viram, o Sesc, um ponto de referência. Dali à 13 foi fácil, as duas chegaram ao Vitorio quando eu estava para pedir o primeiro prato e ligar para a polícia. Almoçamos na santa paz, tomando um Borgonha.
*Ignácio de Loyola Brandão escreve todo domingo
