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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012

Duas mulheres perdidas na rua

Domingo, 11 de Março de 2012 às 03h00

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Tem determinados lugares desta cidade onde me perco. Não há placas de sinalização, nem indicativas e muitas ruas não têm nomes. Quer dizer, têm. Mas faltam as placas. Quando sigo pela 13 em direção à 36 é comum atravessar avenidas que não sei quais são. Quando mergulho por dentro do São José, região de minha infância, olho para cima e me sinto no vazio. Em que rua estou? Às vezes, preciso andar duas ou três quadras para me encontrar.

Domingo passado, tinha marcado um almoço com minha mulher às 13 horas. Ela vinha da Fonte, apanhou a 36 e, a certa altura, perdeu a entrada para o Carmo, entrou uma rotatória adiante. Seguiu imaginando que poderia entrar à esquerda e reencontrar a 13, mas não, a avenida foi se afastando e a certo momento, ela não tinha a mínima ideia onde estava.

Nem havia placas nas quais se reconhecesse um nome familiar. Chovia e ela não tinha a quem perguntar. Parou e ficou à deriva, se é que se possa estar à deriva nas ruas, na própria cidade.

A sensação era de sonho. Ela sentia que estava perto. É uma coisa instintiva. Em plena cidade, mas era como se estivesse em meio do mato, sem saber se deveria ir para a frente, para a esquerda ou direita.

Ficou parada até avistar um entregador de gás de emergência. O homem chegou, apertou uma campainha, entregou o gás e então minha mulher se aproximou, pediu a informação;

— Melhor me seguir, senão você se perderá ainda mais, respondeu, gentil, o jovem.

Ele seguiu, ela atrás. Viravam para a direita, para a esquerda, ela ficou assombrada, não tinha dado todas aquelas voltas. Mistério.
Em que parte da cidade estariam? Incrível a sensação de estar perdidos em nossa cidade, no lugar em que nascemos, crescemos, sempre frequentamos.

Estará Araraquara tão grande assim? Ou era um sonho, imaginação? A minha sogra estava ao lado, imaginava reconhecer uma casa (aqui deve ser minha cabeleireira), outra (aqui deve morar uma amiga, a Heloisa, ex-Macedo), depois via que não era, ambas estavam perdidas.

Estariam em outra cidade? São Carlos, Matão, Catanduva, Ibaté, Orlândia, Cedral? Como? Não tinham andado tanto. Nem por um momento sentiram pânico, apenas procuravam lugares familiares, placas. Achavam até uma aventura. Perdidas no espaço. Era curiosa a sensação. Perder-se sem bússolas, sem GPS, sem orientação, sem placas. Seguindo aquele entregador de gás que andava e andava e andava.

Para onde ele estaria a levá-las? E se fosse um sequestrador? A chuva caia, granizo batia no teto do carro, barulho infernal, pouquíssima visão. Súbito, o entregador de gás apontou uma avenida dupla:

— Sigam em frente, sairão no Der.

Elas seguiram, se reencontraram, logo viram, o Sesc, um ponto de referência. Dali à 13 foi fácil, as duas chegaram ao Vitorio quando eu estava para pedir o primeiro prato e ligar para a polícia. Almoçamos na santa paz, tomando um Borgonha.

*Ignácio de Loyola Brandão escreve todo domingo

Agressões à nossa intimidade afetiva

Domingo, 12 de Fevereiro de 2012 às 03h00

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Há mudanças no mundo. Claro, é um clichê, uma frase facílima. Ao mesmo tempo, paradoxal. Porque parece que muda e continua a mesma coisa em relação à humanidade, fome, doenças, miséria, corrupção (mais do que nunca hoje) estão aí. Mas quero falar de mudanças setorizadas, em certos segmentos. E elas são importantes, porque de mudança pequena em mudança grande, vamos nos transformando.

Sexta-feira passada participei daquela que foi considerada uma sessão histórica na Academia Paulista de Letras. Modesto Carvalho, o homem do Patrimônio Histórico e o marchand Renato Magalhães Gouveia disseram que foi uma sessão apropriada para a comemoração dos 90 anos da Semana de 22, uma semana de rupturas.

Eros Grau, um personagem do mundo jurídico, ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal, ex-Ministro do Superior Tribunal Eleitoral, foi empossado como o novo acadêmico, na cadeira de número 11. A mim, coube-me recebê-lo, o que me fez tremer nas bases nas últimas duas semanas, enquanto bordava um discurso de posse. De repente, tudo ficou fácil. Eros acaba de publicar um livro delicioso, "Paris, Quartier Saint Germain", memória, anotações, visões, sensações, insights. Um livro de poemas em prosa, de minicrônicas que refletem a Paris por ele amada. Ele mora lá, mora em São Paulo, mora em Tiradentes. Quem gosta da cidade e quer passear por ela, busque já, é um breviário, um guia.

Fui me conduzindo através do livro, captando fragmentos de Eros aqui e ali, um homem avantajado, mas doce, sensível, inteligentíssimo, um personagem shakespereano, um Orson Welles redivivo. Na mesa, o vice-presidente da República, Michel Temer, amigo do homenageado há 43 anos, estudaram Direito na mesma época; na plateia, José Serra, Almino Affonso, e amigos de Eros há 40, 50 anos. Foi uma sessão nova, porque o ranço acadêmico desapareceu, não houve palavras ilustres, pomposas, não houve adjetivação fácil, houve emoção, humor, alegria. Imaginem que o discurso de Eros terminou com um "Eu te amo". dirigido à Tania, sua esposa:

Na academia de poucos anos atrás, os "veneráveis", os "anacrônicos", os dito respeitáveis, senhores do saber, teriam se revirado e torcido de raiva. Sexta-feira houve aplausos, risos. Orgulhei-me. Participar de um momento de rompimento emocionante.

Destaco um momento do livro, por mim citado em meu discurso. E que se liga ao princípio desta crônica. Eu disse: Queiram ou não, o mundo se transforma e também a Paris de todos os tempos. Há dor ao ver a Livraria Le Divan, frequentada entre outros por Sartre, virar do dia para a noite uma loja Dior. Ou o Drugstore numa esquina de Saint Germain dando lugar às roupas Armani. Também loja de modas se tornou a livraria PUF, em Saint Michel. E assim por diante.

Assim, muitos redutos que fizeram a cidade ser o que é, se foram. Também centenas de pessoas que fizeram dela um mito, em tempos remotos e atuais. No entanto, Eros Grau ao mostrar sua perplexidade, amplia para o mundo sua visão. O que se passa em Paris, se passa em São Paulo, Nova York, Roma, toda parte. Eros define este novo processo, perturbador:

Poucos percebem que o desaparecimento de um estabelecimento comercial faz perecer não somente os móveis, os produtos, o décor da casa, mas também os seres humanos que davam vida a todas essas coisas. Onde está, para onde foi toda essa gente que integrava meu universo afetivo?

Que diabo de método de produção social desagradável, sempre assumindo formas novas, engolindo o passado e os que faziam parte dele! Não apenas os que perderam seus empregos. Também os que confiávamos encontrar nos lugares de sempre, os velhotes de sempre, de colete e gestos distanciados no tempo. Também eles perderam seus pontos de afeição. Para onde foi, o que foi feito dela, aquela senhora simpática que me vendia cigarros no Drugstore, até o início das madrugadas? Eles não percebem — os sujeitos da transformação econômica — que agridem bruscamente a nossa intimidade afetiva quando renovam o quartier e o mundo?

E eu transpusesse para Araraquara poderia dizer o mesmo sobre a igreja Matriz, o Municipal, os cines Odeon, Paratodos e Coral, a casa de Chiquinho Vaz, o Convento da Santa Cruz, e etc., etc. Agressões à nossa intimidade afetiva.

*Ignácio de Loyola Brandão escreve aos domingos neste espaço

Sabe onde está o seu Chiquinho?

Domingo, 05 de Fevereiro de 2012 às 03h00

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Quando o assunto, ou a pessoa, me interessa, aceito escrever o que se chama livro institucional. Tenho prazer. Se não tivesse, não faria. Na vida, a gente tem de fazer o máximo possível para gostar demais do que faz. Se não, qual a graça? Aceitei escrever a história da CVC. Quem não conhece a famosa agência de viagens que dava aquelas bolsas azul e amarela que se viam pelo Brasil inteiro em rodoviárias, aeroportos, portos, hotéis, resorts? Acabei descobrindo um personagem fascinante, Guilherme Paulus, o homem que criou a empresa. E que, nos anos 70, descobriu o nicho da classe C, sobre o qual todos falam hoje em dia.

Não foi Lula nem ninguém quem acertou quando foi buscar seu consumidor na classe C. Foi Guilherme, esperto, ágil, criador do turismo de massa. Hoje em dia, tem um mundo de gente falando em classe C, mas poucos realmente vão ao cerne dela, principalmente empresas e agências de publicidade. No dia em que foi chamado pelo grêmio de funcionários de uma montadora de automóveis para criar um roteiro de viagens para trabalhadores, operários, Guilherme vislumbrou o futuro e apostou nele. Resultado, neste mês está na capa da revista Exame, apontado como o bilionário das viagens. No entanto, é um sujeito simples, boa praça, conversador, engraçado e ousado. Quantas vezes liguei, ele mesmo atendeu. Sem mil secretarias, assessores, diretores de marketing. Um sujeito que começou carregando malas de viajantes na madrugada debaixo da chuva, enquanto sua mulher distribuía os lanches que passara a noite a fazer. A CVC foi o primeiro serviço de bordo em viagens rodoviárias. Um dia, na Espanha, encantado com um transatlântico, quis saber da empresa de navegação quanto custava trazê-lo ao Brasil.

— Precisa ter cacife, disse o armador, meio desprezando.

— Quanto?

— Seis milhões de dólares.

— Pois te dou um cheque de um milhão de dólares agora e vamos fazer o contrato.

Bem, o livro sai em maio, e adorei fazer. Adorei principalmente pelas mil side stories que levantei e mostram como uma empresa cresce e como tudo acontece. Num embarque, um funcionário da empresa ia de passageiro em passageiro, instruindo, indagando. Diante de um casal de 30 anos, perguntou:

— Vocês estão com o seu voucher?

— Não, estamos com o seu Amaral.

Em outro embarque para Santa Catarina, faltavam dois passageiros, ele rodou pelo aeroporto, até ver dois com as bolsas CVC, inconfundíveis.

— Por favor, vocês vão para Navegantes?

— Não, nossa excursão é aérea, não por barco.

Daí em diante, todos atendentes, todos receptivos foram orientados no sentido de conscientizar os passageiros quanto a terminologia própria e a certos procedimentos. Certa manhã, em um hotel, o guia estava à espera, só faltava um casal que desceu com meia hora de atraso.

— Meu senhor, algum problema? O que aconteceu?

— Nada, minha mulher estava arrumando o quarto.

Tudo por causa daquela plaquinha pendurada na maçaneta da porta do hotel. De um lado está assinalado: POR FAVOR, NÃO PERTURBE. Do outro: ARRUME O QUARTO. Entende-se agora como a CVC, ao longo destes 40 anos, tem formado o espírito do turista, ensinando a viajar.

Outro guia, estava em Guarulhos arregimentando seu grupo quando viu um velhinho que tinha o voucher na mão e parecia perdido .

— Precisa de alguma coisa, meu senhor?

— Preciso encontrar o Chiquinho.

Juracy ficou intrigado. Chiquinho? Não havia ninguém no atendimento da CVC com esse nome. De repente, tudo ficou claro. Alguém entregara o voucher a ele, dizendo:

— Quando o senhor chegar no aeroporto, entregue este papel no check in.

Outra vez, tarde da noite, bem tarde, muitos anos atrás, um funcionário e um companheiro estavam no escritório da CVC em Santo André preenchendo passagens (antes dos computadores, antes de tudo) quando ouviram um barulho de máquina de escrever no andar de cima. Sabiam que estava sozinhos, e as luzes no outro andar estavam apagadas. Quem estaria escrevendo à maquina, aquela hora? Pelo sim, pelo não, deixaram as passagens de lado e saíram correndo na noite. No dia seguinte conheceram o datilógrafo misterioso. Era a maquina de telex que era acionada à distância, funcionando sozinha, automaticamente. A informática acabou com o telex, mas ele foi bem moderno.

*Ignácio de Loyola Brandão escreve aos domingos neste espaço

Os favores de Eugenia Perversa

Domingo, 29 de Janeiro de 2012 às 03h00

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Eugenia Perversa, linda, linda, encantava os jovens e prometia delícias, jamais acontecidas. Mas todos os homens pensavam nela, aqui no bairro do São José. Queriam gozar de seus favores, ainda que ninguém soubesse que favores seriam esses. Ou a que ponto ela os concederia. Esse perversa, acrescentado ao nome da loira voluptuosa, como diziam os bons alunos de português, aqueles que sabiam mais palavras do que os outros, bem essa perversa tinha origens misteriosas, nunca explicadas.

Ela teria tido muitos homens em sua vida e todos desapareceram. Mas quantos homens uma mulher de 19 anos podia ter tido numa cidade como esta em que todos sabem de tudo, principalmente agora com a rede social, internet, celulares e más línguas? Dizem que um destes homens teria sido visto pela última vez em Bueno, comendo coxinhas ao lado de Eugenia. Não significava nada, todo mundo já foi visto em Bueno.

Outro foi visto no museu da TAM em São Carlos, seria ajudante de mecânica e teria fugido do País escondido no interior de um trem de aterrissagem. Mas há quem garanta que se recolheu ao seminário de padres, preocupado com sua alma e com o que fez com Eugenia Perversa. Mas o que de mal ele teria feito? Aqui as cabeças se remoíam de tanto pensar, os neurônios se aqueciam a altas temperaturas. Curiosidade e excitação dominavam. Houve quem quisesse sequestrar a moça obrigando-a a contar tudo. Parece até que houve o tal sequestro, mas algo se passou, porque os ditos sequestradores reapareceram no dia seguinte agindo de modo estranho e assim continuaram. Isso se passou há três anos e as famílias daqueles jovens internaram todos sem extrair deles uma só palavra.

Os psiquiatras da cidade me garantiram que observaram uma aura em torno dos cabelos louros de Eugenia Perversa. Algo que os fascinou, de tal modo que não conseguiam desviar os olhos dela. Dois a seguiram até o restaurante da Fazenda Salto Grande, mas Eugenia desapareceu na cachoeira e por mais que esperassem, procurassem, gritassem, ela não se mostrou. Foram perguntar a Liliana Lupo se havia algum caminho secreto, já que ela conhece a fazenda como a palma da mão dela, é um recanto tradicional, Porém — foi o que me disseram, nem sei se Liliana os recebeu, está ocupada com a fábrica — ela negou caminhos secretos. Por que haveria de ter? Seria algo como aquele túnel que, em Roma, vai do castelo de Santo Ângelo ao Vaticano para a fuga dos papas?

O pessoal teria se entreolhado sem saber o que era o Castelo Santo Ângelo, a não ser pelas referências em filmes como "Código Da Vinci" ou "Anjos e Demônios". O que se sabe é que, um mês depois, descobriram que Eugenia estava trabalhando numa indústria de bordados em Ibitinga. Bordava bem, tinha talento, mas insistia em fazer desenhos que poderiam ser considerados imorais, portanto foi demitida. Houve pressão para que ela saísse da cidade, no entanto, os que a pressionaram no dia seguinte perderam os empregos na Caixa, no Banco do Brasil, nas lojas e bares em que trabalhavam. Pediram desculpas, alegaram que tudo o que tinham feito era tentar comer Eugenia, mas isso era impossível, ela tem uma aura sobre a cabeça que atrai e a defende.

O que ratifica o que disseram os psiquiatras. Ou teriam sido psicanalistas, ou psicólogos? Não quero errar para não fazer afirmações inverídicas que possam atrair a ira da classe sobre minha pobre pessoa. Porque se caio em desgraça, me internam e há nesta cidade mais de vinte casas de internação, escondidas sob siglas atraentes, mas que são hospícios dos quais não se sai nunca mais. Não se iludam com letreiros que prometem a cura, eles são como Eugenia Perversa, cujo mistério me obceca e hei de revelar. Parece que há um porão no grupo escolar da Rua 6, Largo da Câmara, que engole gente.

O telefone toca.

— Quer falar com quem? Quem é

— Eugenia.

— Ah! Eugenia Perversa?

— Por que me chamam assim?

— É o que eu gostaria de saber.

— Também eu. Por que não unimos nossas forças e inteligências?

— Você e eu. Juntos? Água e óleo não se misturam.

— Mas você não adoraria tentar se misturar?

Penso nisso desde aquele dia. Devo? Não devo? Estou ameaçado? Minha vida pode mudar? Por que o meu medo de coisas desconhecidas? E se esta é a minha chance? Não posso viver numa dúvida perpétua. Só os covardes não procuram o conhecimento, a mudança. E se o porão do grupo vai até o túnel do Salto Grande?

*Ignácio de Loyola Brandão escreve aos domingos neste espaço

Diálogo maluco com um desentupidor

Domingo, 22 de Janeiro de 2012 às 03h00

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Há situações no cotidiano que beiram o surreal e acabam fazendo parte, naturalmente, de nossas vidas. Coisas do prosaico dia a dia nos levam a refletir. Mas só então nos damos conta do absurdo. Aí, já está feito. Pior, no desespero, mandamos fazer. Porque não há saída. O que aconteceu comigo, na sexta-feira, mostra o fantástico da cena doméstica. Nossas casas são um perigo.

Temos um terraço no décimo terceiro andar. Recentemente fizemos uma reforma no apartamento e descobrimos em seguida três ralos da casa entupidos com cimento, gesso, e outras coisas. Não existem pedreiros capazes de cuidar de aspectos primários como esse: o dos ralos que sugam materiais que viram pedra lá dentro. Ralos são humildes, ali no chão. Ninguém liga para eles, desprezados, engolindo sujeiras e sem reclamar. De vez em quando, gritam: basta. E vem a revolta, o entupimento.

Pois mais um ralo, o do terraço entupiu. Descobrimos durante uma dessas chuvas de verão que vem com tudo. Veio a chuva, a água subiu, transbordou para a sala, da sala atingiu o corredor, foi à cozinha, passou por baixo da porta e desceu as escadas. Pânico nosso e no prédio: "a caixa d’água arrebentou", diziam. Subiu o zelador e verificou que a caixa estava numa boa, quietinha. O problema estava em minha casa.

Nesse momento, já estávamos, mulher, filha, eu e uma visita, a prima Marilda, com baldes na mão, e com todos os panos encontrados da casa jogados pelo chão, tentando conter a enxurrada. Acabaram os panos, vieram toalhas de banho, e enfim os tapetes mais grossos que funcionaram como dique. Tirávamos três baldes, as nuvens despejavam quatro no terraço.

Chuva parou, céu limpou, fomos dormir, manhã seguinte chamamos a desentupidora. Chegaram os homens com um carrinho, tubos e molas, foram até o terraço, tiraram a tampa, olharam, prepararam a maquininha, que é como se fosse uma máquina de costura. Então, perguntei:

— Quanto custa isso?

— Tanto por metro, respondeu o encarregado. O senhor aprova?

— Sim, porem, me diga mais ou menos quantos metros serão?

— Não posso dizer, porque ainda não coloquei o equipamento no ralo.

— Então, como vou aprovar o orçamento?

— Se o senhor quiser, vá acompanhando, vai vendo a metragem e fazendo seus cálculos.

— Não existe um preço mínimo, nem um máximo?

— Não! É por metro! O senhor aprova?

— No escuro?

— Se tiver sorte, o entupimento está perto.

— É como a mega sena? Uma aposta?

Ele riu, concordou:

— É isso! Não tem outro jeito.

— Vai em frente.

Fazer o quê? Deixar que fosse embora e viesse outra chuva, alagasse tudo? Tremi ao pensar. Fiquei olhando a mola desentupidora descer pelo ralo. Desceu a primeira, ele colocou outra. Foi a segunda, veio uma terceira, E o homem mexia para lá, mexia para cá. Aquela mola girando produz um efeito especial indefinível. Ela tanto pode estar entrando como saindo. Ilusão de ótica. Uma hora depois deram por terminado. Passaram a medição: 14 metros. Uns seis andares. Custo? 5 mil reais. Não tem como discutir, provar, reprovar. Nada. É como um dogma da igreja. Nossa onde foi entupir esse ralo? O jeito era fazer o cheque. Contestar o quê? Discutir o que? Como garantir a medida? Agora sei, desentopem canos e bolsos.

*Ignácio de Loyola Brandão escreve aos domingos neste espaço