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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012

As lamentações dos rentistas

Sábado, 03 de Setembro de 2011 às 03h00

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Daqui a algumas décadas, quando se voltar os olhos para esse fim de ciclo financista, o escândalo que armaram com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de baixar em meio ponto a taxa Selic será um dos pontos centrais do anedotário malicioso nacional. O País tem, disparado, a mais alta taxa de juros do planeta — 12,5% ao ano. O Copom decidiu reduzi-la em meio (0,5!) ponto. Permaneceu uma taxa imensa, de 12% ao ano, contra praticamente zero dos Bancos Centrais de países avançados.

Parecia que o mundo iria acabar. O estardalhaço foi inacreditável. Economistas ouvidos meia hora depois já ensaiavam o muro das lamentações, sustentando que a decisão marcava o fim da autonomia do Banco Central. Comentaristas que dias atrás admitiam que o câmbio estava excessivamente apreciado, e que os juros poderiam ser baixados, de repente revisaram suas opiniões e dispararam a metralhadora vesga contra a decisão.

E todos absolutamente incapazes de traçar correlação mais sofisticadas sobre os efeitos da crise internacional na economia brasileira — inclusive para rebater os argumentos do BC.

Depois de anos e anos de cantilena mercadista, depois do fracasso mundial do modelo de desregulamentação do mercado, das reações universais contra essa visão estreita de mercado, depois dos inúmeros levantamentos sobre a forma de atuação do lobby financeiro, o mise-en-scène desses atores serve apenas como material didático, para comprovar como a economia — pelo menos na discussão pública — é apenas uma ferramenta visando legitimar interesses de grupos específicos, através de um linguajar pretensamente técnico.

Quando se critica essa visão financista, não se pense no sistema bancário, os fundos de investimento em geral. Trata-se de um segmento restrito de rentistas que só sabem viver das benesses dos juros altos e do câmbio baixo.

O mercado financeiro e de capitais são peças relevantes para o desenvolvimento do País. E ambos ficaram por anos atrofiados pela política de juros altos.
Bancos comerciais têm a importante tarefa de emprestar dinheiro. Quanto maior a taxa de juros, menos útil será sua função de emprestar. Não se empresta a longo prazo e se restringe a financiamento ao consumo e ao crédito consignado.

Já o mercado de capitais é fundamental para reciclar a poupança, aplicar em novos setores que surgem, em infraestrutura, na reestruturação da economia. Mas com taxas de juros elevadas, a poupança concentra-se no financiamento da dívida pública e torna-se preguiçosa, mesquinha, ilegítima.

No curto período em que a taxa Selic caiu abaixo de dois dígitos, houve um frenesi em muitos gestores de fundos, pela brecha que se abrir para que o capital privado migrasse dos títulos públicos para outras formas de aplicação, inclusive em investimentos de risco em infraestrutura.

Os pretensos porta-vozes mercadistas não representam o lado mais dinâmico e moderno do mercado. Representam apenas o lado viciado do rentista, do sujeito que aprendeu a viver de juros e não tem ânimo sequer para correr riscos em atividades mais úteis.

Blog: www.luisnassif.com.br
Email: luisnassif@globo.com

Sustentabilidade na Embraer

Sexta, 02 de Setembro de 2011 às 03h00

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Empresa brasileira que mais investe em inovação tecnológica, a Embraer tem um desafio extraordinário. Até algum tempo atrás, inovação era maneira de ter um diferencial no mercado. Hoje em dia, é fator de sobrevivência.

Esse foi o mote da apresentação de Hermann Ponte e Silva, vice-presidente de Sustentabilidade e Desenvolvimento Organizacional da empresa, no seminário Brasilianas sobre Inovação. Depois do setor farmacêutico, o de aviação é o mais intensivo em tecnologia. Quando privatizada, a empresa tinha 800 funcionários. Hoje em dia, tem 4.000 engenheiros. Anualmente, investe US$ 70 milhões em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) pré-competitivo.

Assim como em 2008, o quadro internacional afeta suas vendas. Mais de 90% da receita vem de exportação e tem-se o mundo em crise e o real extremamente valorizado. Internamente, o País sustenta-se no mercado interno, mas é um cenário que não beneficia a empresa. Nos últimos dez anos, a taxa/hora de engenharia e produção triplicou; mas o mercado interno não resultou em novas demandas. É longo o ciclo de vida de uma família de aviões. A empresa aposta na linha, monta suas pesquisas, analisa vantagens competitivas e entra no mercado novo. Se erra o modelo ou o timing, quebra.

Anos atrás, a Embraer lançou a linha EMB 170/190, de jatos médios, que foi um retumbante sucesso e a alçou ao terceiro lugar entre as companhias aéreas — superando a rival Bombardier. Conseguiu preencher nichos ainda não explorados. Agora, pelo menos três potências vêm atrás disputando mercado: Japão, Rússia e China, além da canadense Bombardier.

O caminho seguinte foi lançar a linha Legacy, de jatos executivos. Esse mercado é dividido entre o corporativo e o de compradores individuais. O primeiro grupo privilegia marcas já consagradas. Atacou o segundo, com sucesso.

A Embraer entrou no mercado tradicional sem grande conhecimento de design. Com a aviação executiva, teve de avançar. Montou uma parceria com uma empresa da Califórnia e, depois, desenvolveu competência interna.

Até algum tempo atrás, a inovação dava-se na fabricação e no design dos aviões. De alguns anos para cá, a empresa passou a discutir novos modelos de negócios — aliás, uma área que faz a diferença entre as empresas norte-americanas e as brasileiras.

A inclusão da palavra sustentabilidade junto com inovação não é por modismo. Nos próximos dez anos, será diferencial competitivo, depois disso, condição para competir.

Só que o conceito precisa abranger toda a cadeia produtiva — da mesma forma que a inovação. E aí o Governo tem papel central de orquestrador, articulando empresas, fornecedores, clientes e universidades, e ajudando a regular o processo.

Um dos projetos mais dinâmicos da empresa é o do empreendedor interno, visando estimular os funcionários a colaborarem com soluções. Ao longo de quatro anos, houve mais de 4.500 projetos de melhoria interna, de implementações de chão de fábrica até ideias que alteraram completamente a linha de montagem. Houve inovações na engenharia, no RH, em TI (Tecnologia da Informação). O campeão de sugestões é um funcionário que teve mais de cem ideias implementadas.

*www.luisnassif.com.br

A estratégia do pacote fiscal de Dilma

Quarta, 31 de Agosto de 2011 às 03h00

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Para entender o tal pacote fiscal de Dilma Rousseff.

O mercado vive repetindo a cantilena de que, para baixar os juros, é necessário substituí-lo por um aperto fiscal. O efeito de ambas as ferramentas seria reduzir a demanda e, com menos venda, obrigar as empresas a baixar os preços. Trata-se de um método que tem como objetivo final permitir a manutenção de juros altos. Não existem contas confiáveis sobre o correlação entre ajuste fiscal e juros — ou seja, de quanto precisaria ser o ajuste para permitir, digamos, derrubar a Selic em 3 pontos.

Depois, porque a lógica da redução de demanda é perversa. Este ano, há dois preços pressionando a inflação: alimentos e serviços pessoais. Alimentos, devido a movimentos especulativos internacionais; serviços pessoais devido à melhoria de renda da população.

Ora, quando se aumentam os juros, o consumo de alimentos é incomprimível — as pessoas continuarão comendo. Então, derruba-se sua capacidade financeira de adquirir outros bens, que em nada estão afetando a inflação. Setores que não reajustaram preços são penalizados, a produção e o emprego afetados em áreas que já não tinham muito espaço para aumentos.

Por tudo o que tem dito, Dilma sabe disso. Tanto que desde o final do ano passado, o Banco Central passou a promulgar medidas prudenciais, que não passavam pelos juros. Foi alvo de um terrorismo só, de setores do mercado e da imprensa financeira falando em quebra da confiança do mercado no BC — um blefe que o banco engoliu, promovendo mais aumentos na Selic quando se sabia que a inflação tenderia a descer a partir de junho, julho.

As agências de risco — que têm por única lógica a solidez fiscal dos analisados — têm melhorado o rating do Brasil, comprovando que os ajustes estão sendo feitos.

A economia está desaquecendo, as indústrias já se ressentem da falta de encomendas, a inflação já caminha de volta ao centro da meta. Qual a intenção, então, de um corte adicional de R$ 10 bi no orçamento? Certamente não é para combater a inflação. A lógica por trás das medidas é outra.

Em 2008, o País recorreu às ferramentas fiscais para enfrentar a crise. Desonerou de impostos setores relevantes, definiu uma ação rápida de injetar moeda na economia permitindo ao Brasil sair-se com poucos arranhões. Mas reduziu o ritmo da queda da relação dívida pública/PIB.

Neste momento, a arrecadação fiscal está bombando, provocando gritas entre aliados e ministérios querendo recompor seu orçamento. Ao definir o corte de R$ 10 bi e direcionar os recursos para a redução da dívida, matam-se dois coelhos com uma só cajadada. De um lado, ganha-se fôlego para implementar novas políticas fiscais no próximo ano, se o cenário externo piorar muito. De outro, força o BC a reduzir os juros, já que estão atendidos os pressupostos do mercado. A verdadeira economia virá daí, da queda dos juros, permitindo ao País cobrir tanto despesas operacionais quanto a conta de juros.

Mais ainda. Com o câmbio no nível atual, qualquer crescimento no mercado interno será suprido por importações — como já vem ocorrendo. Reduzindo os juros há esperança de que o real se desvalorize um pouco.

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O Brasil e os economistas do Real

Segunda, 29 de Agosto de 2011 às 23h39

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Na semana passada, o Instituto Fernando Henrique Cardoso montou um seminário juntando economistas do Plano Real e sociólogos tucanos, visando criar uma nova plataforma para o partido.

Os economistas foram decepcionantes, de acordo com o julgamento do filósofo José Arthur Gianotti. Limitaram-se a defender cortes em programas sociais, privatização generalizada, a ponto de Gianotti se espantar: "Desde o último artigo que li de Gustavo Franco, tive a impressão de que vocês descreem da possibilidade de se prover o welfare state (estado do bem estar). Mas o que pretendem fazer com essa gente?".

A única proposta concreta foi a de Pérsio Arida, propondo gestão privada para FGTS e FAT.

E aí me trouxe recordações daquele período. Durante alguns anos, apoiei a ideia de privatização com fundos sociais, levantada por um empresário paulista. Era uma saída fantástica para legitimação das privatizações e do Governo. Estados, municípios e União reconheceriam suas dívidas com os chamados fundos sociais. Bancariam com seus ativos. Seriam emitidas Obrigações Sociais do Tesouro permitindo ao trabalhador que quisesse trocar seu direito ao FGTS por obrigações, que seriam utilizadas no processo de privatização. Criar-se-ia um autêntico mercado popular de ações tendo como centro empresas públicas privatizadas.

Apesar da beleza da ideia, não houve maneiras de convencer os economistas. Conversei pessoalmente com José Roberto Mendonça de Barros, Vladimir Riolli e André Franco Montoro Filho — que participaram da comissão de privatização tucana no governo Itamar. Depois, com Antonio Kandir, José Serra, Tasso Jereissatti.

André fulminou a ideia com uma alegação besta, apenas uma desculpa tosca: a de que "as contas não fechavam", como se houvesse alguma conta a ser fechada.

Com o Real, os economistas estavam mais preocupados em beneficiar alguns grupos, em enriquecer com a manobra do câmbio — que quebrou as contas públicas brasileiras por 16 anos.

Várias vezes alertei que, com o tempo, haveria uma perda de legitimidade das privatizações e o PSDB não teria bandeira alguma para empunhar.

Agora, FHC chama os economistas para trazer ideias. Nunca as tiveram, no sentido de compreensão do jogo político, dos espaços para o desenvolvimento da economia brasileira. Tinham apenas o sentimento de grupo, de manobrar o câmbio e as privatizações.

16 anos depois do Real, não resta uma bandeira para os economistas do Real, além desse liberalismo tosco, de privatizar tudo e cortar todos os benefícios sociais. A alegação de Gustavo Franco, no encontro, foi a de que "os políticos retomaram a iniciativa". Durante algumas décadas, o mercado apropriou-se da política, em cima de um discurso falso e primário, sustentado por bordões da mídia. O momento mágico acabou em 1999, com o fracasso do câmbio de Gustavo Franco.

Hoje em dia, os economistas do Real lembram velhos lutadores já com a vida feita e sem nem vontade de voltar a pensar.

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A falácia dos países sem moeda própria

Domingo, 28 de Agosto de 2011 às 03h00

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Mesmo depois do desastre de Domingo Cavallo, na Argentina, há defensores da moeda única entre países. A ideia por trás disso é que alguns países não conseguem ter disciplina fiscal. Passam então a emitir moeda de forma descontrolada. A maneira de "discipliná-los" é tirar-lhes esse direito, amarrando a moeda local a uma mais forte — o dólar ou, no caso da União Europeia, ao euro.

Ignora-se o papel central do câmbio na definição estratégica dos países.

Tome-se o caso da Inglaterra no século 18, quando se preparava para tornar-se a maior potência do mundo.

Portugal recebia muito ouro do Brasil. Por conta disso, tinha uma moeda muito valorizada. A Inglaterra ansiava por espalhar suas manufaturas pelo mundo. Sua estratégia consistia em comprar produtos primários e vender produtos acabados. Por sua vez, a Índia tinha uma indústria têxtil mais forte que a inglesa.

Aproveitando a diferença cambial com Portugal, a Inglaterra montou um acordo pelo qual os vinhos portugueses poderiam ser importados com isenção, tornando-os mais competitivos que os concorrentes franceses. Em troca, Portugal abriu seu mercado. As manufaturas inglesas invadiram o país, liquidaram com as fábricas portuguesas e conseguiram em pagamento grande parte do ouro extraído do Brasil.

Com esse ouro, a Inglaterra comprou produtos têxteis da Índia, mas não para consumo próprio — pois destruiria sua própria indústria. Revendeu-os para outros países, e com a receita adquiria matérias primas.

Não é o único caso em que o câmbio marcou a diferença. Em 1944, o Tratado de Bretton Woods visou disciplinar as relações entre as moedas. O Brasil aderiu ao Tratado definindo a paridade da sua moeda em relação às demais. Só que este levou quatro anos para ser implementado. Nesse intervalo, houve inflação no Brasil que não foi levada em consideração. Consequência: até meados dos anos 60, o País viveu infindáveis crises cambiais que atrasaram o desenvolvimento industrial brasileiro.

No pós-guerra, a recuperação das economias da Itália, Alemanha e Japão foi impulsionada por câmbio desvalorizado. Assim como o grande milagre coreano: o que o precedeu foi uma moeda desvalorizada. Tanto assim que grandes economistas conservadores dos anos 50, como Eugenio Gudin e Roberto Campos, defenderam medidas dessas para o Brasil.

No caso argentino, Cavallo amarrou o austral ao dólar. O câmbio apreciado liquidou com a indústria local, empobreceu a população, derrubou a arrecadação fiscal. Mesmo assim, as províncias emitiam dívida até para pagar salário. Liquidou-se com a economia argentina sem disciplinar o gasto fiscal.

O mesmo está ocorrendo com os países europeus imersos em crises terríveis. Se não estivessem amarrados ao euro, Grécia, Portugal, Espanha e Itália desvalorizariam suas moedas, ganhariam competitividade e teriam mais condições de enfrentar a crise atual. Sem o manejo do câmbio, afundam.

Pior que uma moeda sem flexibilidade é ter a flexibilidade e permitir que o câmbio destrua a indústria brasileira — como está ocorrendo agora.

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