
O pão é o primogênito da agricultura; nascido do cereal arrancado com o suor das primeiras civilizações, é também o primeiro alimento elaborado no processo daquilo que parece que vai estragar e acaba dando vida, a fermentação.
Alguns povos antigos comiam papas e não pão — foram os egípcios com suas massas obtidas da farinha dos cereais do grande Nilo que ficavam observando o crescimento cheiroso e gostoso que acontecia; como não dava em nada a torra dessa massa em cima do fogo de chão, fizeram uma torre com os tijolos de lama do rio e aprisionaram o calor das chamas para cozer o precioso alimento. Encantaram-se com o cheiro. Hecateu de Mileto, por volta de 500 a.C. chamava os egípcios de "comedores de pão" e eu acrescento que foram grandes "bebedores de cerveja" porque do lado de cada padaria ladeava uma cervejaria e estes produtos de manufatura funcionaram como moeda de troca no comércio desse povo.
No "Livro dos Mortos" prescreve-se a resposta para o inimigo que recusa dar pão ao vitimado:
Sou um homem que tem pão em Heliópolis...
O meu pão está no céu, junto do Deus Sol...
O meu pão está na Terra à guarda de Keb.
A barca da noite e a barca da manhã
Trazem-me o pão, o meu alimento,
Da casa do Deus Sol.
No entanto, se o pão foi o primeiro alimento feito pelos civilizados, o que chamamos hoje de sanduíche teria sido a primeira refeição nascida nas camadas mais pobres desse povo que, ao comer seu pão de cada dia, o aproveitava para tudo, inclusive para parti-lo com uma faca e recheá-lo com restos de legumes, peixes e carnes picadas e criando assim uma composição que ousamos chamar de primeira refeição da humanidade.
Estava enlevado nessas reflexões ao escrever estas linhas e vi que me faltava inspiração e talento para colocar em palavras uma forma estética e marcante o momento. A melhor seria uma poesia, mas quem sou eu; no entanto, lembrei-me da minha assistente que é poeta — a Bel (psicóloga Maria Isabel Escarmin); após vinte minutos nos escreveu este:
SANDUÍCHE SENTIDO
Como se possível me fosse,
Dar à vida o pão já formado!
O prazer em sentir o peito quente,
Assando a ponto do desejo,
Da massa amadurecendo lentamente
Amarelando, esfarelando, continuamente...
Como numa só abocanhada,
Os sabores indiscretos do recheio da vida
Iriam aos poucos me refletindo num espelho de olfatos,
Degustações
Fantasias!
Como se possível me fosse,
Dar à vida o pão já formado!
Trabalhado com detalhes de línguas
Luxúrias gastronômicas!
Na papila lingual algum sentimento
Desejo? Anseio? Vontade?
Medo, curioso e indiscutível...
Coloquem todos os molhos!
Preciso de todos os recheios!
Não irei até o Egito!
Tragam-me às areias de gergelim
No meio dessa massa tenra e macia
Minha boca faz o recheio...
Esse fiel fermento de mim!
Bom proveito!
MARCOS NOGUEIRA
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