Dia 23 tive a honra de fazer a palestra de abertura da 28º Semana Maçônica em Araraquara. O evento se realizou no Teatro Municipal com a presença de muitas autoridades, entre elas o Prefeito Marcelo Barbieri.
Uma das histórias de oradores maçons que contei ocorreu com José do Patrocínio e Silva Jardim. Eles se enfrentaram no Teatro Lucinda no Rio de Janeiro. Os dois que haviam sido companheiros de luta na causa da abolição dos escravos eram naquela noite dois adversários. Silva Jardim abraçara a causa da República, o que contrariava os ideais de José do Patrocínio. Silva Jardim falou inicialmente e entusiasmou a todos quantos o ouviam, pela elegância e firmeza de sua comunicação. Terminou sua apresentação aplaudido de pé por todos. Quando chegou a vez de José do Patrocínio, ouviu-se uma palavra tímida e hesitante. Por causa de sua comunicação inexpressiva, começaram a surgir as primeiras vaias da plateia. Chegou o momento em que as vaias eram tão fortes que não se ouvia mais a voz de Patrocínio. De repente, sem que ninguém esperasse, quando todos imaginavam que já estivesse derrotado, eis que surge do alto de uma das torrinhas do teatro uma frase que bateu como chicotada no rosto do tribuno — "Cala a boca, negro!".
Patrocínio ficou paralisado, as mãos enrijecidas, os olhos esbugalhados. Após aquele momento de paralisação o orador se recuperou e voltou a falar defendendo-se daquela voz e atacando Silva Jardim. Falou com tanto entusiasmo, com tanta energia, com tanta emoção, que as mesmas pessoas que estavam vaiando mudaram a atitude e passaram a aplaudi-lo.
No final, carregado em triunfo nos ombros, Patrocínio queria saber ainda quem havia sido o covarde que pronunciara aquelas palavras injuriosas. Ao seu lado, considerado o grande amigo de José do Patrocínio, chamado de " o esbanjador de talentos do Rio de Janeiro", o jornalista Paula Ney disse: "fui eu, meu amigo. Fui eu porque você estava perdido, arrasado, e somente uma palavra que pudesse balançar o seu espírito e movimentar a sua alma poderia trazer de volta esse orador extraordinário que o País passou a conhecer e que hoje admira tanto."
Foi assim, nesse empate entre dois ilustres maçons que Patrocínio conquistou uma das maiores vitórias de sua carreira.
*Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de expressão verbal e autor de 19 livros
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