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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012

Embate entre dois maçons

Domingo, 28 de Agosto de 2011 às 03h00

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Dia 23 tive a honra de fazer a palestra de abertura da 28º Semana Maçônica em Araraquara. O evento se realizou no Teatro Municipal com a presença de muitas autoridades, entre elas o Prefeito Marcelo Barbieri.

Uma das histórias de oradores maçons que contei ocorreu com José do Patrocínio e Silva Jardim. Eles se enfrentaram no Teatro Lucinda no Rio de Janeiro. Os dois que haviam sido companheiros de luta na causa da abolição dos escravos eram naquela noite dois adversários. Silva Jardim abraçara a causa da República, o que contrariava os ideais de José do Patrocínio. Silva Jardim falou inicialmente e entusiasmou a todos quantos o ouviam, pela elegância e firmeza de sua comunicação. Terminou sua apresentação aplaudido de pé por todos. Quando chegou a vez de José do Patrocínio, ouviu-se uma palavra tímida e hesitante. Por causa de sua comunicação inexpressiva, começaram a surgir as primeiras vaias da plateia. Chegou o momento em que as vaias eram tão fortes que não se ouvia mais a voz de Patrocínio. De repente, sem que ninguém esperasse, quando todos imaginavam que já estivesse derrotado, eis que surge do alto de uma das torrinhas do teatro uma frase que bateu como chicotada no rosto do tribuno — "Cala a boca, negro!".

Patrocínio ficou paralisado, as mãos enrijecidas, os olhos esbugalhados. Após aquele momento de paralisação o orador se recuperou e voltou a falar defendendo-se daquela voz e atacando Silva Jardim. Falou com tanto entusiasmo, com tanta energia, com tanta emoção, que as mesmas pessoas que estavam vaiando mudaram a atitude e passaram a aplaudi-lo.

No final, carregado em triunfo nos ombros, Patrocínio queria saber ainda quem havia sido o covarde que pronunciara aquelas palavras injuriosas. Ao seu lado, considerado o grande amigo de José do Patrocínio, chamado de " o esbanjador de talentos do Rio de Janeiro", o jornalista Paula Ney disse: "fui eu, meu amigo. Fui eu porque você estava perdido, arrasado, e somente uma palavra que pudesse balançar o seu espírito e movimentar a sua alma poderia trazer de volta esse orador extraordinário que o País passou a conhecer e que hoje admira tanto."

Foi assim, nesse empate entre dois ilustres maçons que Patrocínio conquistou uma das maiores vitórias de sua carreira.

*Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de expressão verbal e autor de 19 livros
www.polito.com.br

A caderneta da Dona Maria

Domingo, 21 de Agosto de 2011 às 03h00

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Ficou fácil demais comprar pela internet. Em poucos segundos você pesquisa tudo pelo computador — tipo do produto, modelo, preço, prazo de entrega. Se você for cadastrado, pedindo à noite, quando acordar o produto já estará na porta da sua casa.

Na semana passada, fiz compra pela internet. Aproveitei uma promoção de vinhos portugueses. Fechei o pedido às 2h30 da matina, quando acordei às 10h já haviam entregado a caixa na porta do meu apartamento. Impressionante!

Livro então é moleza maior ainda. Se for digital, é só baixar e começar a ler. Na hora. Se for livro impresso, dá para receber no mesmo dia. Se for livro antigo ou usado nos mais diferentes estados de conservação, há sites digitais que vendem para mais de mil sebos espalhados pelo País.

Nos sebos digitais você não só encontra o livro que deseja como também compara os mais variados preços. Já encontrei livros com preços que variaram de R$ 2,00 até R$ 50,00. O mesmo livro. Consegui completar várias coleções de revistas e livros dos anos 50 só pesquisando e comprando pela internet.

Toda essa facilidade tecnológica me faz pensar em como as coisas funcionavam na minha época de garoto. Por isso, me lembrei da padaria da Dona Maria, que ficava na Rua Dois, na esquina com o Jardim Primavera, onde hoje está instalada uma agência bancária.

O casal Dona Maria e Seu Luiz eram os donos da padaria e responsáveis pelo atendimento. Eram craques. Conheciam todos os clientes pelo nome. Quando minha mãe ou minha avó chegavam para comprar os pãezinhos nem precisavam pedir. Já sabiam a quantidade exata para pôr no saco.

Pegavam a caderneta e marcavam à mão o valor da compra. A caderneta ficava em poder do cliente com os valores devidos. No final do mês, sem um dia de atraso a conta era paga. Era uma prova de confiança como não se vê mais.

O casal tinha uma forma habilidosa para motivar a pontualidade do pagamento. Assim que a conta era quitada imediatamente eles davam ao cliente como presente um pacote de biscoitos.

Se pensarmos em valores, aquele pacotinho de bolachas não representava muito, mas todos os clientes ficavam satisfeitos com a consideração. Hoje, vejo empresas gastando fortunas para fidelizar clientes, mas por mais sofisticada que seja a ação jamais superam a eficácia daquele simpático casal.

A Dona Maria e o Seu Luiz já não estão mais lá. A padaria também fechou as portas. Os exemplos que deixaram como ensinamento, entretanto, jamais desaparecerão. Os tempos são outros, mas as pessoas são as mesmas. Todos nós gostamos de ser tratados pelo nome, com amabilidade e consideração. Pois é, a caderneta da Dona Maria deixou saudade.

*Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de expressão verbal e autor de 19 livros
www.polito.com.br

Uma encruzilhada digital

Domingo, 14 de Agosto de 2011 às 03h00

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Estamos vivendo uma fase de transição. Nativos digitais convivem e disputam espaço com os imigrantes digitais. Garotos antenados reviram os mais complexos aparelhos eletrônicos sem dar uma única olhada no manual.

Nasceram com o chip na cabeça e se comportam como se a parafernália fosse extensão do próprio corpo. Por mais avançado e inovador que seja o aparelho lançado em qualquer parte do mundo, não se assustam. Com alguns toques, já desvendam os segredos e incluem o "brinquedinho" em algum compartimento da mochila.

Coitados dos imigrantes digitais. Precisam estar atualizados e nasceram quando ainda nem se falava em chip. Assim que se acostumam com um aparelho, estremecem ao saber que há um bom tempo tudo o que estava dominado já virou peça de museu.

Quando se aventuram na aquisição do último modelo começam a esquentar a cabeça. Se tiverem criança em casa, negociam uma ajuda. Sim, precisam negociar, senão o pestinha pega o aparelhinho novo, aperta um monte de botões ao mesmo tempo, levanta a sobrancelha e diz: viu só como é bico?

O imigrante sente-se um idiota e sussurra diante daquela carinha que destila enfado: peraí, você foi muito rápido, não deu para acompanhar. Para incentivar um slow motion é preciso ter moeda de troca. O que o pirralho gostaria de ganhar para se motivar ao help desk passo a passo?

Se o imigrante for daqueles que deixam o relógio dos aparelhos domésticos piscando porque não sabem como acertar as horas, está na cara que não tem criança em casa. Pode preparar uns dois finais de semana para se dedicar à leitura do manual. E "olelá".

Dois finais de semana, todavia, não garantem que não terá de dar uma escapada na casa do sobrinho. Como quem não quer nada, só para mostrar o aparelho novo. E, lógico, pegar umas dicas. Sobrinho é mais tolerante que filho. Pelo menos na aparência.

Em que ponta você está? É nativo ou imigrante? Se for nativo cuidado com a arrogância. Provavelmente você precisará mais da ajuda dessa gente de cabelos grisalhos em tantos assuntos de condução da vida que eles de você. O fato de não terem domínio da tecnologia não significa que sejam parvos. Se pedirem ajuda, faça o que puder com paciência e boa vontade. Você só tem a ganhar.

Se você for imigrante, relaxe, amigo. Sua experiência, superando desafios e encontrando saídas aos inúmeros problemas que teve de enfrentar é um patrimônio valioso. Essa história de vida não poderá ser substituída por nenhuma tecnologia. Só um conselho. Não desdenhe das inovações tecnológicas. Quanto mais aberto estiver às novidades, mais facilidade terá para entendê-las e dominá-las. Palavra de imigrante.

*Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de expressão verbal e autor de 19 livros
www.polito.com.br

Quatrocentos

Domingo, 07 de Agosto de 2011 às 03h00

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Quatrocentos. Pois é, este é o artigo de número quatrocentos que escrevo nesta coluna. Foram mais de um milhão de toques digitados no silêncio das madrugadas, como este texto que escrevo agora às 4 horas, quase ao amanhecer. Nesses oito anos como colunista da Tribuna já falei de tudo.

Dei dicas de comunicação. Relembrei de antigos e queridos professores. Falei da Ferroviária. Contei histórias. Enalteci alguns amigos. E, infelizmente, me despedi de outros. Abri meu coração para falar de mágoas. E com a mesma sinceridade, comemorei vitórias. Se eu encerrasse minhas atividades na Tribuna hoje, parte importante da minha vida teria sido escrita em suas páginas.

Na minha estreia, em agosto de 2003, um fato lamentável enlutava os brasileiros - um atentado terrorista no Iraque tirava a vida do chefe da representação da ONU Sergio Vieira de Mello, nosso conterrâneo, com apenas 55 anos de idade. Passado tanto tempo, a paz ainda não chegou àquela região.

Dois anos depois, em agosto de 2005, comemorei a primeira centena de artigos. Era o auge da crise do mensalão. Pesos pesados da política despencaram de suas posições dando novos e inesperados rumos à história do nosso País. O assunto embora adormecido ainda não está concluído. Parece que novas páginas terão de ser escritas sobre esse tema antes que seja sepultado de vez.

Mais dois anos se passaram para que eu chegasse ao texto de número duzentos. Essa marca foi conquistada no mês de setembro de 2007. O mundo não falava de outro assunto que não fosse o desaparecimento da menina Madeleine de um hotel em Portugal. Até hoje não se tem notícias dela.

Para chegar ao texto de número trezentos foram necessários outros dois anos. Outubro de 2009. O momento não poderia ser mais significativo para os brasileiros, nosso País fora escolhido para sediar os jogos olímpicos de 2016. Quase todos diziam que era a oportunidade de mostrar ao mundo o que temos de melhor. Pelo corre-corre acho que ainda não temos certeza.

Finalmente cheguei ao número quatrocentos. O que marcará essa época? O quase calote dos Estados Unidos? As novas crises que teimam em pipocar nos mais diferentes cantos do mundo? A extraordinária capacidade que temos de enfrentar e superar as adversidades? Bem, espero chegar ao texto de número quinhentos e daqui a uns dois anos poder contar o que ocorreu com os olhos de quem viu. Até lá.

*Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de expressão verbal e autor de 19 livros

Imprevistos

Domingo, 31 de Julho de 2011 às 03h00

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O meu amigo Antônio Carlos de Souza Ramos me contou uma história curiosa. Ele disse que estava passando uns dias de férias em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais. Sem programa melhor, foi acompanhar um primo em um evento político.

Lá pelas tantas, enquanto os oradores se sucediam ao microfone, ficou pensando nos compromissos que deveria cumprir ao voltar para casa.

De repente, sem aviso prévio, o presidente da solenidade diz: é com imensa alegria que convidamos para vir à tribuna e deixar uma mensagem o Dr. Antônio Carlos de Souza Ramos.

Ele ali, desligado de tudo o que estava ocorrendo, pensou — "engraçado, esse cara que foi chamado tem o mesmo nome que eu". Só neste momento é que se deu conta de que era ele quem estava sendo convidado para falar.

Situações como essa ocorrem com mais frequência do que imaginamos. Nem sempre você poderá prever o momento em que será convidado para falar diante de um grupo de pessoas.

Entretanto, quando surge a oportunidade de falar "de imprevisto" você deverá estar preparado para se apresentar bem.

O que ele fez para sair dessa saia justa? Usou dois recursos que você poderá levar na manga para essas emergências. Comentou sobre o objetivo do evento e o motivo da presença das pessoas naquele local.

Esta é uma boa dica: em situações semelhantes fale respondendo a esta questão: por que as pessoas vieram a este evento?

Em seguida, ele falou sobre um assunto que conhecia muito bem para depois ligar ao tema da apresentação. Dessa forma, ele se sentiu mais à vontade para transmitir a mensagem que precisava. Se tiver de contornar momentos delicados como esse, você poderá iniciar falando, por exemplo, de notícias que esteja acompanhando com interesse, de cenas dos filmes que foram marcantes, das passagens de livros que tiveram significado especial, das viagens que realizou, dos temas que se relacionem à sua atividade profissional.

Poderá também contar fatos que tenha observado pouco antes do momento da sua apresentação. Por exemplo, você poderá fazer referência a uma notícia que tenha ouvido há pouco em uma emissora de rádio, ou uma informação que tenha lido no jornal pela manhã, ou uma conversa que tenha tido com alguns ouvintes pouco antes da apresentação.

Esses temas recentes o tornarão mais confiante, por ainda estarem bem presentes em sua mente, e por serem próximos serão ainda mais atraentes para os ouvintes.

Assim como aconteceu com o meu amigo Antônio Carlos, você poderá se valer de alguns desses recursos para falar de improviso, mesmo que seja convidado a falar "de imprevisto".

*Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de expressão verbal e autor de 19 livros
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