Em 2010, comemorou-se 40 anos da criação da Engenharia de Materiais na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a primeira no Brasil e na América Latina. Com plena empregabilidade, inserção nacional e internacional, o curso já formou cerca de 2 mil engenheiros e mais de 1,5 mil mestres e doutores, além de induzir a criação de mais de uma dezena de programas semelhantes no país e no exterior. Tendo sido responsável pela proposta e coordenado a implantação do curso, e também aproveitando a ocasião dessas comemorações, proponho agora um novo tipo de engenharia para o século XXI: a Engenharia de Sistemas Complexos.
A teoria dos sistemas complexos ganhou enorme relevância nas últimas décadas, com aplicações em química, física, teoria dos jogos, robótica e mesmo em áreas como finanças, macroeconomia, neurociências, inteligência estratégica e energias alternativas - como no caso das chamadas bateria de hidrogênio ou células combustíveis -, entre outras.
A base matemática e computacional para sistemas complexos leva em conta não- linearidades. O enorme número de componentes dos sistemas leva a efeitos chamados emergentes, como transições de fase na física e na química quânticas, tais como supercondutividade, superfluidez, auto-organização, transição de Bose-Einstein em física da matéria condensada e até em astrofísica. Em suma, um novo cenário de ciência, tecnologia e inovação se descortina para a humanidade.
Porém, para o desenvolvimento de um país, precisamos de aplicações para a sociedade, gerando empregos, produtos e serviços. E estas vêm pela aplicação das ciências básicas através das engenharias. As engenharias nacionais é que fazem a diferença na inovação empresarial, na competitividade essencial para inserção do país na globalização.
Mas quais são as diferenças entre essa nova Engenharia de Sistemas Complexos (ESC) e as Engenharias Tradicionais (ET)? O que ela pode resolver que as outras, clássicas, não podem?
Toda engenharia se aplica a sistemas, como sistemas de transporte, de construção, elétricos, nucleares, entre tantos outros. Há também a Engenharia de Sistemas (ES), ou System's Engineering, em inglês, criada após a invenção do computador e que procurou generalizar estas buscas, com modelagens e cálculos mais complexos. Agora, podemos entender com mais clareza o que é a Engenharia de Sistemas Complexos: é a engenharia de sistemas de sistemas!
Em geral, esses sistemas interagentes são incoerentes ou competitivos e possuem enorme número de elementos e variáveis. Como ocorre historicamente, os primeiros a desenvolverem a Engenharia de Sistemas Complexos foram os militares, já que guerras envolvem enorme número de sistemas interagentes, a maioria incoerentes em seus objetivos e funcionalidades: sistemas de transporte, logística, inteligência, estratégias defensivas e ofensivas, clima, meio ambiente, finanças, recursos humanos, tecnologias avançadas. Em suma, um sistema de sistemas de enorme complexidade. Grandes empresas se aproveitaram desse tremendo nicho e, dentro de seus quadros, tiveram que criar, sem academicismo, as bases operacionais da Engenharia de Sistemas Complexos, uando as imensas quantidades de recursos alocados para as guerras que se desenvolvem continuamente no mundo pela busca do poder hegemônico ou regional.
A internet também começou assim, e depois se derramou (trickle-over effect, em inglês) para a sociedade e causou esta enorme revolução digital multimidiática na qual vivemos.
Agora, é o momento de a sociedade se apossar dos destroços benéficos, uma espécie de reciclagem dos conhecimentos gerados pela violência humana em seu benefício mais ético: para a educação, inovação, emprego e controle das mudanças climáticas e de toda a lista de patologias sociais que nos afligem.
Mas como a Engenharia de Sistemas Complexos faz isso? Sua primeira função é sistematizar os sistemas de sistemas e suas incoerências conflitantes mapeando sua "transdisciplinariedade". A segunda, que até foge aos conceitos comuns da tecnologia, vai mais para o lado humanista e social: é encontrar um "ambiente" para o estudo dos sistemas de sistemas.
Vou dar um exemplo claro: a internet é antes de tudo um ambiente (ou um espaço de ambiência) onde interagem os mais diferentes sistemas, a maioria conflitantes: comércio, pornografia, fraudes financeiras, propaganda, redes sociais de diversas tendências, apenas para ficar em uns poucos exemplos. Portanto, o primeiro objetivo da Engenharia de Sistemas Complexos é estruturar essa ambiência para poder realizar seu objetivo de melhor entendê-los, modelá-los e obter os melhores resultados sócio-econômicos, sobretudo para uma sociedade em desenvolvimento como a nossa.
Já temos uma proposta inicial para a difícil estruturação de um currículo para essa Engenharia de Sistemas Complexos. Certamente, não será o melhor nem perfeito. Será, sim, uma semente que, através de uma seleção natural evolucionária, criará várias outras propostas pelo Brasil afora, numa adaptação também típica de um verdadeiro sistema complexo inteligente adaptativo.
Sérgio Mascarenhas, físico, é coordenador de projetos do Instituto de Estudos Avançados da USP em São Carlos. Foi professor e pesquisador em diversas universidades no país e no exterior, entre elas Harvard, Princeton e MIT. Email: sm@usp.br
