Mesma história, mesmos personagens. Apenas um ator faz toda a diferença na versão de 2010 de um dos clássicos da literatura inglesa quase tão filmado quanto os livros de Jane Austen: "Jane Eyre", de Charlotte Brontë.
A primeira versão para cinema a que assisti, de 1996, era assinada pelo contido Franco Zeffirelli e trazia Charlotte Gainsboourg como Jane e um William Hurt aparentando "dor de barriga" no papel de Edward Rochester. Sua interpretação era tão soturna que foi difícil acreditar que era capaz de se apaixonar pela preceptora de sua sobrinha.
Lembro-me de ter gostado da história, mas de ter considerado as atuações do par central insossas, fato que atribuí, à época, à direção do italiano, que sempre considerei também insosso, "certinho" demais, carola demais, enfim, nada demais...
A segunda versão a que assisti foi um telefilme de 1997, com Samantha Morton e Ciáran Hinds, ambos ótimos atores ingleses, mas talvez "bons demais", a ponto de terem pesado a mão na atuação — exagerada, trágica, shakespeareana...
A terceira a que vi, de 2006, tem formato de minissérie em quatro capítulos e traz Ruth Wilson como Jane e Toby Stephens como Rochester. Nesta versão, achei a atuação de ambos o oposto da de 1996, mas igualmente deslocada: leve demais, frívola demais, nada a ver com o clima da história... o atormentado Edward Rochester de Toby Stephens era quase um dândi e o flerte entre ambos soou banal, pequeno, menor. Era como se o tom superficial das interpretações não combinasse com a força do drama.
Eis que chego, finalmente, à minha quarta — e até agora, preferida — versão, filmada em 2010 com Mia Wasikowska (a Alice de Tim Burton) na pele da governanta e o charmosíssimo Michael Fassbender (o Eric/Magneto jovem de "X Men - Origens") como um apaixonante Sir Edward Fairfaix Rochester.
Agora sim! Nada de expressão de dor-de-barriga ou atuação hipertrágica e nem frívola.
O Edward de Fassbender dosa com precisão a jocosidade que Rochester tenta aparentar na superfície, o tormento que tenta disfarçar na consciência e a paixão que o domina num crescendo...
A garota Wasikowska também está muito bem, mas permitam-me derreter-me mais ante a expressividade do olhar sofrido e apaixonado e a voz de veludo de Fassbender. Ele, sozinho, vale o filme! A direção é de Cary Fukunaga.
