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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012

Três versões de ‘Jane Eyre’ para as telas

Quarta, 14 de Dezembro de 2011 às 03h00

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Mesma história, mesmos personagens. Apenas um ator faz toda a diferença na versão de 2010 de um dos clássicos da literatura inglesa quase tão filmado quanto os livros de Jane Austen: "Jane Eyre", de Charlotte Brontë.

A primeira versão para cinema a que assisti, de 1996, era assinada pelo contido Franco Zeffirelli e trazia Charlotte Gainsboourg como Jane e um William Hurt aparentando "dor de barriga" no papel de Edward Rochester. Sua interpretação era tão soturna que foi difícil acreditar que era capaz de se apaixonar pela preceptora de sua sobrinha.

Lembro-me de ter gostado da história, mas de ter considerado as atuações do par central insossas, fato que atribuí, à época, à direção do italiano, que sempre considerei também insosso, "certinho" demais, carola demais, enfim, nada demais...

A segunda versão a que assisti foi um telefilme de 1997, com Samantha Morton e Ciáran Hinds, ambos ótimos atores ingleses, mas talvez "bons demais", a ponto de terem pesado a mão na atuação — exagerada, trágica, shakespeareana...

A terceira a que vi, de 2006, tem formato de minissérie em quatro capítulos e traz Ruth Wilson como Jane e Toby Stephens como Rochester. Nesta versão, achei a atuação de ambos o oposto da de 1996, mas igualmente deslocada: leve demais, frívola demais, nada a ver com o clima da história... o atormentado Edward Rochester de Toby Stephens era quase um dândi e o flerte entre ambos soou banal, pequeno, menor. Era como se o tom superficial das interpretações não combinasse com a força do drama.

Eis que chego, finalmente, à minha quarta — e até agora, preferida — versão, filmada em 2010 com Mia Wasikowska (a Alice de Tim Burton) na pele da governanta e o charmosíssimo Michael Fassbender (o Eric/Magneto jovem de "X Men - Origens") como um apaixonante Sir Edward Fairfaix Rochester.

Agora sim! Nada de expressão de dor-de-barriga ou atuação hipertrágica e nem frívola.

O Edward de Fassbender dosa com precisão a jocosidade que Rochester tenta aparentar na superfície, o tormento que tenta disfarçar na consciência e a paixão que o domina num crescendo...

A garota Wasikowska também está muito bem, mas permitam-me derreter-me mais ante a expressividade do olhar sofrido e apaixonado e a voz de veludo de Fassbender. Ele, sozinho, vale o filme! A direção é de Cary Fukunaga.

‘Incêndios’: dilacerante retrato da intolerância

Sexta, 09 de Dezembro de 2011 às 03h00

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Não é preciso entender a letra da música de abertura de "Incendies" — filme canadense de Dennis Villeneuve, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro — para senti-la como um lamento dolorido embalando as imagens de uma paisagem de rochas e vegetação pálida. Quando esta paisagem é emoldurada por uma janela, a câmera começa a percorrer um cômodo imundo até focalizar um grupo de garotos tendo suas cabeças raspadas, escoltados pelo que parecem ser soldados árabes armados. A música-lamento é quase uma personagem na cena... De repente, a câmera se fixa no calcanhar tatuado por três pontos pretos de um dos garotos e percorre seu corpo até alcançar o rosto. É de ódio mudo o olhar que as duas pupilas muito negras endereçam à câmera, sem pestanejar.

O espectador ainda não entende do que se trata a história, mas já sabe que haverá dor, ódio, guerra.

Ficamos meio confusos quando o cenário muda drasticamente para um escritório contemporâneo, onde um testamenteiro lê para um casal de gêmeos as últimas vontades de sua mãe. A falecida pede à filha, Jeanne, que entregue uma carta lacrada a seu pai... e ao filho, Simon, que entregue outro envelope a seu irmão, sobre os quais nenhum dos dois sabia absolutamente nada a respeito até então.

Pelo diálogo rancoroso que se segue, percebemos que os gêmeos tinham questões mal resolvidas com a mãe, o que faz Simon recusar-se a cumprir a vontade que lhe cabe. Apenas Jeanne segue para o Oriente Médio para buscar pistas dos dois parentes, tendo à mão só o crucifixo e o passaporte que a mãe trouxe consigo ao imigrar para o Canadá.

Começa então o resgate da história de Nawal Marwan... movida ora pelo amor, ora pelo ódio, sempre em altas medidas. Ela é contada paralelamente às investigações de Jeanne, que, logo em uma das primeiras indagações sobre seu pai — que faz na aldeia natal de sua mãe —, ouve de uma anciã: "Você procura saber sobre seu pai, mas não sabe quem foi sua mãe". E lá vai ela descobrir como a mãe passou de uma ativista cristã pela paz para uma agente dos refugiados, motivada por "ensinar ao inimigo o que a guerra me ensinou". Ao dizer isso, Nawal refere-se à bestialidade primitiva que a guerra desperta nas pessoas, mesmo quando lutam em nome de uma religião que nasceu pregando o amor — foram guerrilheiros cristãos os autores do ato mais vil que Nawal testemunhou enquanto procurava seu filho por uma região em guerra e houve um incêndio relacionado.

Impossível não sucumbir à tristeza assistindo aos exemplos tão lamentáveis de intolerância e ódio que permeiam a vida de Nawal, mesmo havendo uma mensagem de redenção pelo amor ao final.

Não há nada mais dilacerante do que assistir ao que o ódio pode fazer com a vida das pessoas. Talvez por isso mesmo seja tão necessário fazê-lo. Quem sabe este espelho oferecido pelas histórias contadas nos faça, de algum modo, acordar e tomar partido.

*Silvia Pereira é jornalista e escreve excepcionalmente neste espaço

O cinema e a tevê adoram Jane Austen

Sexta, 25 de Novembro de 2011 às 03h00

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Até ser rodado, todo filme existiu antes como um roteiro. E a maioria, antes de virar roteiro, foi um livro. Na história da sétima arte, nem todos os ótimos livros viraram bons filmes, mas todo ótimo filme teve como base uma história bem escrita, seja em livro, roteiro para teatro ou para o próprio cinema (os chamados "roteiros originais"). Para meu próprio prazer, aprendi cedo a tirar proveito do cinema como vitrine de grandes e boas obras.

Foi pelo cinema que descobri, por exemplo, as obras da escritora inglesa Jane Austen, que viveu entre os séculos 18 e 19. Filha de um reitor (padre da igreja anglicana), Austen escrevia para seu próprio prazer e recusou vários pretendentes para manter esta liberdade já que, segundo os padrões da época, não era profissão para uma mulher.

Em suas poucas obras publicadas — "A Abadia de Northanger", "Mansfiled Park", "Orgulho e Preconceito", "Emma" e "Persuasão" (além da já citada) — a escritora narra romances que têm como pano de fundo uma análise sutil, mas impiedosa dos costumes, hipocrisias e preconceitos da sociedade inglesa do século 18. Sua ironia fina e o texto primoroso são um deleite para quem aprecia a palavra escrita tanto quanto a falada no cinema.

Foi a adaptação cinematográfica de 1995 de "Razão e Sensibilidade", com roteiro da atriz Emma Thompson — que interpreta uma das protagonistas — e direção (pasmem!) do taiwanês Ang Lee, que me apresentou à primeira história da escritora. Como um oriental conseguiu transmitir tão bem o universo e clima ingleses dos romances de Austen, para mim, até hoje é um mistério, mas não deixa de ser uma prova de que uma boa obra é universal.

1995, aliás, parece ter sido o ano das adaptações hollywoodianas de Austen, pois também é deste ano a versão que considero a melhor para o cinema de "Persuasão",com direção de Roger Michell, e adaptação teen de "Emma", Clueless, de Amy Heckerling, que no Brasil chamou-se "As Patricinhas de Beverly Hills".

Também adorei a livre adaptação de Patricia Rozema para "Mansfield Park" (1999), que no Brasil recebeu o título de Palácio das Ilusões" e ri demais de "O Diário de Bridget Jones" (2001), comédia rasgada inspirada na trama de "Orgulho e Preconceito" ("Pride and Prejudice").

Romance mais famoso de Austen, "Orgulho e Preconceito" também teve uma adaptação em 2005 que foi a estreia do jovem diretor inglês na direção de longas. Não fez feio.

Em 2007, Robin Swicord filmou "O Clube de Leitura de Jane Austen", comédia romântica sobre um grupo de pessoas que se reúne para debater a obra da escritora. Cada sessão acaba rolando como uma espécie de terapia em grupo em que os acontecimentos das vidas das personagens do filme se relacionam às motivações das personagens dos livros. E o mais interessante é que até alguns personagens masculinos fora do tal clube, em dado momento, são tentados a ler Austen para entender o que tanto atrai suas mulheres (a obra da escritora normalmente é associada à preferência feminina).

Além das citadas, são inúmeras as versões para cinema e tevê da obra de Jane Austen, sendo as melhores produzidas pelo canal BBC, de Londres, que não se acanha em readaptar os mesmos títulos da escritora a intervalos de poucos anos — é que Jane Austen está para a literatura inglesa mais ou menos como Machado de Assis para a brasileira.

Para quem quiser descobrir ou saber mais sobre Austen, recomendo o site janeausten.com.br como fonte de consulta sobre sua obra. Completo, ele contém biografia, imagens, fichas de todos os livros (completos e incompletos) da escritora, trechos de cartas que ela trocava com a irmã, fichas técnicas das obras para tevê e cinema baseadas em seus romances (até de paródias, filmes baseados na vida da autora e aqueles que apenas lhe fazem alguma referência, mínima que seja), além de dicas e informações postados em formato de blog.

Enfim... o cinema e a tevê adoram Jane Austen (e eu também).

*Silvia Pereira é jornalista e escreve excepcionalmente neste espaço

A dor que cria

Sexta, 28 de Outubro de 2011 às 03h00

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Demorei a entender porque assistir ao filme sul-coreano "Poesia" — premiado no último festival de Cannes —, despertou-me a lembrança de um videoclipe que descobri há anos, durante uma fase depressiva, zapeando canais de tevê em busca de entretenimentos anestesiantes.

No clipe, um garoto australiano de cabelos prateados, magérrimo e de olhar triste, mas com voz de roqueiro adulto, cantava em inglês uma balada com nome de mulher — "Ana’s song" (Canção de Ana). Mas a letra não falava de uma mulher. Mais tarde, li em alguma reportagem comportamental que "Ana" é o apelido dado à anorexia por quem sofre deste transtorno alimentar, que faz o doente recusar comida — às vezes até a morte — por enxergar-se ilusoriamente acima do peso. Em uma "googlada" descobri que o vocalista e compositor da música, Daniel Johns, relatou em "Ana’s Song" sua luta contra a depressão e a anorexia travada na adolescência, quando sua carreira com a banda de rock Silverchair estourava.

Ele se curou da anorexia e continuou com a banda, mas, anos depois, sofreu também de artrite reativa.

É óbvio que se trata de um garoto que "sente demais", como todas as pessoas acometidas pelos males do nosso século — depressão, pânico, anorexia e outros transtornos de origem químico-cerebral — e como muitos artistas que precisam criar para expurgar a dor.

Neste ponto, ficou claro para mim porque a história de uma avozinha linda, com problemas de memória, que se inscreve em um curso para aprender a escrever poesia, despertou a lembrança do videoclipe, à primeira vista tão distante do filme.

Tem a ver com "SENTIR DEMAIS"...

No filme "Poesia", Yang Mija é informada de que seu neto é um dos seis alunos de sua escola suspeito de ter abusado sexualmente de uma estudante que acaba se suicidando. Sem coragem de abordar o neto a respeito, enquanto ensaia formas de aproximar-se dele, que parece tão distante em sua superficialidade, ela percorre também os lugares por onde a jovem suicida passou e viveu...

Em suas peregrinações, anota pensamentos esparsos em uma cadernetinha de bolso na esperança de conseguir escrever um poema — "por que não consigo escrever um?", indaga a um e outro poeta que encontra pela frente.

Em uma das aulas, seu professor de poesia sugere que, para escrever sobre uma maçã, precisamos — mais do que conhecê-la — vê-la, senti-la, entender a beleza em sua existência.

Yang conseguirá enxergar a dor e a beleza em torno de si e, finalmente, escrever seu poema, como Daniel Johns fez em "Ana’s song", mas só depois de "sentir" — SENTIR DEMAIS! — o pesar pela menina morta, pelo neto, galáxias distante dela, e por si mesma, que começa a esquecer-se de substantivos e logo não conseguirá recordar as palavras certas para escrever a poesia de seus sentimentos.

Compreendi que não é de um sentir superficial que nasce a poesia, mas dos mais entranhados, daqueles que ficam escondidos demais dentro da gente para que não nos derrubem quando emergirem com a força dos tsunamis, arrastando-nos sem controle.

São de sentimentos desta natureza que nascem as poesias e qualquer outro tipo de arte genuína.

Entendi porque um grande artista plástico disse uma vez: "Criar dói". E esta dor misturada com beleza conecta a todos que conseguem "sentir demais", que reconhecem a poesia que mora dentro de si.

Criar e compartilhar a criação pode doer... mas é tão sublime!

*Silvia Pereira é jornalista e escreve excepcionalmente hoje neste espaço

Incêndios: dilacerante

Sexta, 16 de Setembro de 2011 às 03h00

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Não é preciso entender a letra da música de abertura de "Incendies" — filme canadense de Dennis Villeneuve, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro — para senti-la como um lamento dolorido embalando as imagens de uma paisagem de rochas e vegetação pálida. Quando esta paisagem é emoldurada por uma janela, a câmera começa a percorrer um cômodo imundo até focalizar um grupo de garotos tendo suas cabeças raspadas, escoltados pelo que parecem ser soldados árabes armados. A música-lamento é quase uma personagem na cena... De repente, a câmera se fixa no calcanhar tatuado por três pontos pretos de um dos garotos e percorre seu corpo até alcançar o rosto. É de ódio mudo o olhar que as duas pupilas muito negras endereçam à câmera, sem pestanejar.

O espectador ainda não entende do que se trata a história, mas já sabe que haverá dor, ódio, guerra.

Ficamos meio confusos quando o cenário muda drasticamente para um escritório contemporâneo, onde um testamenteiro lê para um casal de gêmeos as últimas vontades de sua mãe. A falecida pede à filha, Jeanne, que entregue uma carta lacrada a seu pai... e ao filho, Simon, que entregue outro envelope a seu irmão, sobre os quais nenhum dos dois sabia absolutamente nada a respeito até então.

Pelo diálogo rancoroso que se segue, percebemos que os gêmeos tinham questões mal resolvidas com a mãe, o que faz Simon recusar-se a cumprir a vontade que lhe cabe. Apenas Jeanne segue para o Oriente Médio para buscar pistas dos dois parentes, tendo à mão só o crucifixo e o passaporte que a mãe trouxe consigo ao imigrar para o Canadá.

Começa então o resgate da história de Nawal Marwan... movida ora pelo amor, ora pelo ódio, sempre em altas medidas. Ela é contada paralelamente às investigações de Jeanne, que, logo numa das primeiras indagações sobre seu pai — que faz na aldeia natal de sua mãe —, ouve de uma anciã: "Você procura saber sobre seu pai, mas não sabe quem foi sua mãe". E lá vai ela descobrir como a mãe passou de uma ativista cristã pela paz para uma agente dos refugiados, motivada por "ensinar ao inimigo o que a guerra me ensinou".

Ao dizer isso, Nawal refere-se à bestialidade primitiva que a guerra desperta nas pessoas, mesmo quando lutam em nome de uma religião que nasceu pregando o amor — foram guerrilheiros cristãos os autores do ato mais vil que Nawal testemunhou enquanto procurava seu filho por uma região em guerra e houve um incêndio relacionado.

Impossível não sucumbir à tristeza assistindo aos exemplos tão lamentáveis de intolerância e ódio que permeiam a vida de Nawal. Mesmo havendo uma mensagem de redenção pelo amor ao final, ainda era triste a sensação que me dominava quando os créditos do filme começaram a subir na tela. Não há nada mais dilacerante do que assistir ao que o ódio pode fazer com a vida das pessoas. Talvez por isso mesmo seja tão necessário fazê-lo. Quem sabe este espelho oferecido pelas histórias contadas nos faça, de algum modo, acordar e tomar partido.

*Silvia Pereira é jornalista e escreve excepcionalmente; hoje não publicamos a coluna de Rodrigo Gerace

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