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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012

Os novos quilombos

Sexta, 09 de Março de 2012 às 03h00

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Meu amigo sambista, carioca da gema, Ernesto Pires, já havia sacado o título que hoje nomeia a coluna há uns seis anos, quando lançou seu primeiro CD de carreira.

"Os novos quilombos estão aí", é o primeiro verso da faixa um, que enaltece os locais, não só no Rio de Janeiro — onde ele vislumbrou a cena — mas em todo o País, mais acentuadamente em nosso Sudeste, onde o gênero musical samba ganhou seu formato ao qual o identificamos, a partir da turma do Estácio capitaneada por Ismael Silva, Bide e Marçal.

Quilombo — desde o histórico Palmares — é sinônimo de resistência cultural, entendido como cultura uma forma de viver e conviver, seja no ato de comer, de se vestir, de se relacionar, enfim, de se sentir cidadão em harmonia com o território em que a vida acontece, não só por reprodução de costumes, mas, principalmente, por se poder construir e contar, cada indivíduo, a sua própria história.

A resistência "é que são elas", a parte mais difícil do script, principalmente nos dias atuais, em que a globalização chega pesado impondo novos costumes, visando, única e exclusivamente, o ganho financeiro para quem dita as novidades. A cultura do novo é fundamental para que novos ganhos financeiros ocorram. O novo "hit" para balada noturna, a nova marca de condicionador-para-cabelos-levemente-ondulados-com-pontas-quebradiças, o novo bordão pras tribos poderem se comunicar.

A noção de "velho" passa do absoluto da idade cronológica para o relativo do tempo em que o novo-novo durou até se esgotar, como por exemplo aquela bela sinfonia composta (?) por Michel Teló, que já saturou a paciência até de quem não oferece resistência às novidades exógenas.

Pois então, os novos quilombos que trato são os espaços — normalmente pequenos mas muito alegres e genuinamente cheios de brasilidade — que estão surgindo nas cidades brasileiras, em particular no Sudeste, como disse, mais especificamente em Araraquara e São Carlos, municípios para os quais estamos e voltamos sempre, ou vice-versa.

São pequenos bares, geralmente comandados por pessoas jovens que, não satisfeitos em reproduzir o que a globalização impõe, acabam por adotar o samba como o elo aglutinador das manifestações culturais musicadas.

Em São Carlos, conhecemos recentemente o Toca da Criola. Em Araraquara, podemos citar a Casa Lima, a Casa Bersanetti, o Santa Origem e a lanchonete Johnny Gula — por mais híbrida que pareça no nome, a alma é guiada por cuícas, tamborins e cavaquinhos — todas elas passando a limpo a lição de Zumbi e fazendo várias gerações se (re)encontrarem e se (re)conhecerem na simplicidade, na dignidade e nas mensagens que os sambas clássicos e inéditos nos passam.

Quem já curtiu pelo menos uma roda de samba nesses locais sabe do que estou falando. E quem não curtiu, é só se agendar — desligando a televisão — e correr o risco de se sentir um pouco mais brasileiro.

*Teroca é professor, engenheiro, radialista, sambista e compositor e escreve quinzenalmente às sextas-feiras neste espaço

As Capitanias Hereditárias da MPB

Sexta, 10 de Fevereiro de 2012 às 03h00

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Em meu distante ginasial — década de 1970 — nos esforçávamos para aprender um pouco da pouca história verdadeira do Brasil que os professores nos ensinavam. Contavam a versão do vencedor, no caso, do colonizador português, com os jesuítas a reboque, "catequisando" os indígenas nativos e explorando os negros escravos.

Para poder ter um maior controle das terras invadidas sob o domínio da coroa, a nobre corte lusitana nomeara, nos idos de 1530, governadores gerais, os quais iriam, regionalmente, mandar prender e soltar, explorar e ditar as regras da casa, formando, na sequência cronológica dos fatos, as famosas capitanias hereditárias.

Dizem os historiadores que a famosa expressão "você é filho de quem?" foi talhada nesse período da saga tupiniquim. Essa expressão, me lembro bem, era ouvida e proferida com muita frequência, principalmente nas cidades interioranas, durante a minha infância e adolescência, portanto, quatro séculos após. Significava que o inquiridor só daria atenção ao inquirido caso ele tivesse um sobrenome familiar, sendo que, havendo a negativa, o infeliz não seria nem teria um bom e digno tratamento.

Os tempos passam, as relações humanas se comercializam mais e mais devido à ditadura capitalista e, na atualidade, apesar do avanço da ciência e da tecnologia — que incentiva os cidadãos a estudar e se especializar — parodoxalmente, o que assistimos é uma cena que lembra de perto Tomé de Souza e Duarte Coelho, capitães hereditários das então recém-descobertas Terras de Santa Cruz.

Seja nas relações trabalhistas — onde assistimos ao inchaço dos poderes públicos através de milhares de cargos comissionados sem concurso — seja nos tratamentos médicos — onde aqueles que têm sobrenomes famosos passam na frente daqueles que não têm — seja no alavancar das carreiras artísticas, onde a árvore genealógica fala ainda muito forte, gerando seus galhos (e quebra-galhos, principalmente) como novos artistas.

Nunca ficou tão evidente se perceber isso, devido à revolução das comunicações, com as notícias em tempo real divulgadas na rede mundial, a internet. Basta se ter o discernimento, a paciência e a perseverança para se aprender a juntar os fatos e notícias. O corporativismo que vemos existir, por exemplo, no recente caso levantado pelo CNJ — Conselho Nacional de Justiça — também é reproduzido nas hostes culturais. Salvo exceções, o famoso Q.I. — não o Quociente de Inteligência, mas o Quem Indicou — está mais presente do que nunca, virou regra na maioria das relações de nossa sociedade; salvo exceções, em nenhum momento de nossa história se percebeu, tão evidenciado, que o mérito está perdendo de goleada do marketing (entenda-se aqui assessor de imprensa ou cargo correlato).

Na nossa querida MPB — música popular brasileira — a pequeníssima fatia do mercado que restou, pela ação predatória da MPPB - música pra pular brasileira — é disputada por aqueles que ainda acreditam que a arte não deve ser algo "negociado". Ocorre exatamente nessa legião minoritária o apadrinhamento, a influência. Muitas carreiras se estabelecem pelo sobrenome, principalmente de "quem indicou". É só prestar atenção...

*Teroca é professor, engenheiro, radialista, sambista e compositor e escreve quinzenalmente às sextas-feiras neste espaço

Janeiro e fevereiro, faixa nobre do samba?

Sexta, 27 de Janeiro de 2012 às 03h00

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E todo o ano é a mesma coisa. Em janeiro e fevereiro, a grande mídia reserva um espaço generoso para os festejos do Momo, nos quais, teoricamente, o samba é o patrimônio cultural brasileiro em destaque. Sambas-de-enredo (ou seriam marchas-de-enredo, devido à velocidade com a qual são executadas?) ilustrando as diversas escolas — daqui, de São Paulo, do Rio de Janeiro — geralmente compostos por um "escritório" de autores (como diria o mestre Monarco, que recentemente nos visitou) — seis/sete/oito parceiros para se chegar a um "refrão contagiante" e só, via de regra...

Já faz muito tempo que se deu a dissociação do samba com as escolas de samba, cronologicamente marcada pela oficialização da Marquês de Sapucaí como passarela do samba referencial no carnaval, nos idos de 1984. O carnaval como produto turístico se impôs, o patrimônio cultural brasileiro teve de fazer quatrocentas concessões para que esse modelo se perpetuasse e servisse de padrão para outras metrópoles e cidades deste patropi...

As escolas de samba do Rio e Sampa, em sua grande maioria, têm em sua presidência figuras ligadas à contravenção/tráfico de drogas/tráfico de armas, tanto que vira e mexe notícias surgem nos telejornais dando conta da prisão — temporária — dos patronos, muito provavelmente em função de alguma mudança de comando do policiamento, que, salvo exceções, jamais inibirão o formato hierárquico da alta cúpula das mesmas.

É do interesse do poder público — e privado — que um crescente número de turistas visitem e participem dos festejos carnavalescos, uma vez que muitos dólares e euros — mesmo em época de braba recessão mundial americana/europeia — acabem sendo gastos, sejam nos hotéis, nos restaurantes, nos táxis, e, claro, nos guichês das escolas, pois uma fantasia para turista estrangeiro custa muito caro. E como, em nossa sociedade, tudo se explica pela rentabilidade financeira, se haverá lucro para toda essa cadeia mercadológica, porque mudar a fórmula???

A fórmula é essa que aí está: um samba-de-enredo ultra-acelerado, para se conseguir desfilar no tempo disponível um número elevadíssimo de integrantes das alas — número este inchado pelos turistas — e, consequentemente, adeus ricas melodias, frases poéticas tão características dos sambas-de-enredo de outrora... No lugar dos grandes passistas e ritmistas estarão as celebridades televisivas, mulheres siliconadas rebolando seus corpos emborrachados. Nas alegorias, carros cada vez maiores, elevados, transferindo o centro de gravidade do gingado original do samba, das "cadeiras" das mulatas, para os acenos desritmados dos convidados especiais em destaque.

E ainda dizem que em janeiro e fevereiro o samba está em alta, é como se fosse a sua faixa nobre anual. O samba ou a indústria cultural do carnaval???

*Teroca é professor, engenheiro, radialista, sambista e compositor e escreve quinzenalmente às sextas-feiras neste espaço

Salve Monarco, o Monarca do Samba

Sexta, 13 de Janeiro de 2012 às 03h00

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Como nos tempos imperiais — Dom Pedro II nos visitou em meados de 1885 — a cidade, amanhã, depois de mais de século, receberá a visita de um monarca... Só que oriundo da corte do samba, localizada no subúrbio carioca de Riachuelo.

Estamos falando de Hildmar Diniz —assim grafado nos cartórios civis — nascido no ano de 1933, pouco tempo depois do nascimento da sua querida Portela, do também suburbano bairro de Oswaldo Cruz. Na infância, ganhou o apelido de Monarco devido a um amigo achá-lo parecido com um personagem de estórias em quadrinhos que saía num gibi da época. Perambulando pela Baixada Fluminense — Duque de Caxias mais precisamente — ele começara a ouvir falar, pelo rádio, dos desfiles das escolas de samba, evento este que angariava mais e mais prestígio, visibilidade e interesse pelo governo do então Distrito Federal. Muito se falava da competição para eleger o Cidadão Samba, cargo que por muitas vezes foi ocupado pelo lendário Paulo Benjamim de Oliveira, o "seo" Paulo da Portela, fundador em 1928 da azul e branco de Madureira, bairro maior que Oswaldo Cruz, reduto portelense.

Nas idas e vindas de sua família humilde, numa das várias mudanças, coincidentemente, seus pais desembarcaram de malas e cuias na décima sexta estação da Central do Brasil, no caso, Oswaldo Cruz. Por capricho do destino, repentinamente, Hildmar estaria muito perto de conhecer o já folclórico fundador. Dito e feito, e com muito pouco tempo de convivência — em 1949, o mestre Paulo viera a falecer precocemente — o aspirante portelense inicia sua trajetória no mundo do samba, compondo sambas de enredo e sambas de terreiro, com os quais acaba por ser convidado para integrar a ala de compositores da escola, cargo honorífico de grande respeito na comunidade.

E dali em diante, pela beirada do prato, sempre com muita dignidade, atenção, perseverança e respeito aos maiorais que o cercavam, de forma muito natural — e apesar da sua pouca idade na década de 1960 — acaba por virar sinônimo da escola, elemento de ligação com as gerações de Paulo, o fundador, e Paulinho da Viola, o seu sucessor, conforme versos do belíssimo samba "De Paulo a Paulinho". Paulinho, inclusive, em 1970, no início de sua fulgurante carreira — e atento à riqueza musical do berço portelense — vem a produzir o inesquecível LP "Portela, passado de Glória", onde materializa, através do disco, todos os grandes bambas da famosa Velha Guarda da Portela.

Desse trabalho em diante, Monarco desponta, inquestionavelmente, como o grande líder da entidade recém-criada. Em 1976, após entregar de bandeja para Martinho da Vila o sucesso "Tudo menos amor" — parceria com Walter Rosa — entra em estúdio para gravar seu primeiro trabalho autoral. Dono de uma voz grave de timbre único e incomparável, ano a ano, nosso professor aumenta a legião de seguidores, admiradores de sua simplicidade, sabedoria e categoria na arte de versar e cantar.

Amanhã, 21 horas, no Sesc, com entrada gratuita, eu estarei, junto com todos os amantes do samba da região, recebendo o Monarco, em companhia de Chapinha, do Samba da Vela paulistano, outro grande amigo que o samba me deu. A corte do samba estará sendo formada... Perfilem-se...

*Teroca é professor, engenheiro, radialista, sambista e compositor e escreve quinzenalmente às sextas-feiras neste espaço

Sonho de uma noite de Natal

Sexta, 30 de Dezembro de 2011 às 03h00

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Seu Natalino José do Nascimento, o Natal da Portela, o "homem de um braço só", dando suas bandas pelos cafés do centro, finalmente encontrou Noel de Medeiros Rosa, com a face um tanto amarrotada mergulhada numa das mesas. Este, após recobrar, mesmo que parcialmente, os sentidos, ficou incumbido de avisar Angenor de Oliveira, o mestre Cartola, em uma construção próxima dali, para que no final do expediente rumasse para a casa de Antonio Candeia Filho, o Candeia do Quilombo, pois lá haveria um feijão gordo preparado pela Tia Vicentina...

Apesar de ainda estar na cadeira de rodas, o descendente quilombola foi até seu muro divisório e pediu pro Chico Santana não esquecer de convidar também o Manacéa, pra não faltar cavaco nem corvina de linha pro aperitivo... Naquele momento, passeava pelo exato quarteirão o Roberto Ribeiro, que se autoconvidou e se comprometeu a passar na casa de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, ainda um pouco sonolentos pela madrugada estendida por causa da festa de fundação do Império Serrano...

E a notícia fluiu, pelos trens da central do Brasil, que fizeram chegar o convite pro Nelson Cavaquinho, ainda nos bares da Cinelândia e com seu cavalo amarrado a um poste da Light...Nelson bateu palmas na Casa Edison, avisando o parceiro Guilherme de Brito, que atendia no balcão a Carmen Miranda e o Dorival Caymmi, sedentos que estavam à procura de uma nova partitura do Assis Valente, este, ainda um pouco bronqueado com a "tábua" que levara da Pequena Notável...

Ao ver o alvoroço em frente à pharmácia onde labutava, Ataulfo Alves não se fez de rogado e foi conferir o encontro, garantindo ele e suas cabrochas depois das 18hs, quando fecharia o estabelecimento, antecipando-se a dizer que teria mesmo que passar no Largo do Estácio e dali carregaria Ismael Silva, Bide e Marçal, além do futuro Mestre Marçal, que já embatucava um tamborim do berço enquanto o pai dava acabamento no lustro de uma cristaleira...

E a notícia correu, chegou até São Paulo pelas ondas da Rádio Nacional, ecoou nos ouvidos atentos de Adoniran, que, com seu inseparável cão Peteleco, tratou de passar um pano no paletó pra poder embarcar na primeira classe... E da Rádio Nacional, o aviso ecoou na Rádio Record paulistana, vindo reverberar na nossa PRD4, onde Marcondes Machado transcrevia tudo para os ouvidos atentos do Tchê, do Liminha, do Chico do Couro e do recém-chegado amigo Gassen Gibran, que imediatamente começou a procurar pelo LP doado pelo Nelson Cavalaria a fim de garantir o tão sonhado autógrafo...

E assim, com o quintal do céu cheio de brasilidade, houve o réveillon mais feliz de todos os tempos, felicidade contagiante de tal forma que até São Pedro decidiu adiar o tradicional temporal da virada do ano para não interromper a festança, que infelizmente, foi acordada pelo desavisado despertador do cotidiano... Mas para não perder o sonho, iremos estar hoje à noite no Ponto Chic do Salomão, a partir das 20 horas, homenageando os bambas e amigos que nos deixaram, mas que deixaram muitas saudades e boas perspectivas pro ano que daqui dois dias começa... Apareçam!!!!

*Teroca é professor, engenheiro, radialista, sambista e compositor e escreve quinzenalmente às sextas-feiras neste espaço