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Quinta-Feira, 24 de Maio de 2012

Tudo que você queria saber sobre neuróticos urbanos

Quarta, 07 de Março de 2012 às 03h00

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Com um título desses, nem precisava de artigo, não é mesmo? Ao traduzi-lo, eu ainda não tinha lido "Conversas com Woody Allen", saboroso volume com as entrevistas que Eric Lax fez com o cineasta ao longo de 43 anos, vale dizer, 43 filmes. Juntam-se aqui o artigo (Süddeutsche Zeitung, 22/12/2011) e apontamentos da leitura referida.

"Nero Fiddled", o novo filme de Woody Allen, deve chegar às telas em meados de 2012. Desde "Scoop" (2006), o diretor não ocupava mais a frente das câmeras, o fará em um dos episódios. Tendo trabalhado em Londres ("Match Point"), Barcelona ("Vicki Cristina Barcelona") e Paris ("Meia-Noite em Paris") nos últimos três anos, Roma foi desta vez o cenário escolhido.

Como em quase todas as suas produções, o novo filme traz um elenco estelar — entre eles, Alec Baldwin, Roberto Benigni, Penelope Cruz, Jesse Eisenberg e Ellen Page. Com a pretensão de fazer uma adaptação livre de "O Decamerão", de Giovanni Boccaccio, o filme originalmente deveria se chamar "The Bop Decameron", com as histórias contadas pelo poeta medieval italiano devendo merecer uma leitura moderna.

Tê-lo rebatizado como "Nero Fiddled" significa, na verdade, um abandono da ideia inicial. "Difícil acreditar que até mesmo em Roma tão poucas pessoas conheçam o livro de Boccaccio, declarou recentemente o cineasta à revista americana Entertainment Weekly.

Em tempo, pela caracterização dos excessos da vida dos clérigos, bem como pelas passagens eróticas de sua obra, o escritor, que viveu no século 14, sofreu enérgica rejeição por parte da Igreja.

A nova comédia é dividida em quatro episódios, independentes, dois deles protagonizados por italianos e os outros dois, por americanos.

O primeiro gira em torno de um marido (Woody Allen) e sua esposa (Judy Davis), que viajam a Roma para encontrar a família do futuro genro. O segundo tem Roberto Benigni no papel de um homem chamado Leopoldo, que, em decorrência de algumas confusões, é tomado por um astro de cinema e passa a viver inúmeras situações ambíguas. No terceiro, para encontrar-se com amigos, um arquiteto americano viaja às margens do Tibre. No último episódio, um homem (Alessandro Tiberi) e uma mulher (Alessandra Mastroni) chegam a Roma para visitar parentes e perdem-se pela Cidade Eterna.

O próximo projeto do cineasta terá como cenário uma metrópole alemã: Munique, conforme noticiava há alguns meses a revista Focus. Para Woody Allen: "Munique é uma cidade maravilhosa, muito culta e sofisticada, a comida é boa, a cerveja é boa — nela eu passaria alguns meses filmando com imenso prazer." Previsão para o início das filmagens: verão europeu de 2012.

Apontamentos de Leitura

Woody Allen começa escrevendo piadas para artistas de "stand up" e agências diversas. Em 2 anos, terá escrito cerca de 20 mil piadas.

Depois, ele próprio chega aos palcos, à Broadway (autor de peças cômicas) e ao cinema (pontas em filmes que abomina, como "Cassino Royale" de John Huston).

Ao assumir a direção, faz "filmes com piada atrás de piada", como ele define. Mas desde sempre ambicionou fazer filmes sérios. É notório seu apreço pelo cinema de Ingmar Bergman.

Sua lista dos melhores filmes de todos tempos é sua lista dos melhores filmes europeus de todos os tempos, mais três produções do japonês Akira Kurosawa. Ah, e um único filme americano: "Cidadão Kane".

Aos poucos deixa de lado a obrigação de ser sempre o protagonista, e de ser sempre engraçado. Considera-se limitado como ator. Dos filmes cômicos, elege "Um estranho assassinato em Manhattan" (que foi uma de suas peças de sucesso na Broadway). Dos filmes sérios, "Match Point" é um ponto de chegada.

Não julga ter prestado grande contribuição ao cinema. Quando não está filmando, ou está na sala de montagem, ou está escrevendo. Se deixasse de fazer filmes, nenhum problema, continuaria a ser o que sempre foi: escritor.

*Zé Pedro Antunes é professor de Literatura Alemã e escreve às quartas-feiras neste espaço

‘Chuva bom!’/‘Bom também!’

Quarta, 15 de Fevereiro de 2012 às 01h45

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Início da madrugada, lá vinham eles em silêncio, mãos dadas, sóbrios, amabilíssimos, findo mais um dia de labuta na cidade estrangeira, um casal de chineses. Há tempos nos vemos no mesmo horário e lugar, e nos cumprimentamos sem palavras. As deles, se viessem, borbotariam mandarinescas, pictográficas, ideogramáticas. Da outra calçada, de repente me foi dado ouvir a primeiríssima frase na história desses encontros. Frase muito breve, quase um jato exclamativo: "Chuva bom!" E a mim só me ocorreu dizer, em resposta, de longe, enquanto a chuva caía mansa, um desses bordões cuja autoria vai se perdendo com o uso generalizado: "Bom também!". Era a minha vã tentativa de estar à altura daquele esforço ingente, daquela explosão criativa, da expressividade com que o casal de chineses se mostrava gentil comigo, ao mesmo tempo em que se mostrava agradecido ao tempo: "Chuva bom!".

Fiquei a imaginar quanto "chuva bom!" eu não terei espalhado pelos países pelos quais me aventurei sem o domínio do idioma. Pensei em Miss Lina, a quem o Instituto Confúcio confiou a missão de ensinar o mandarim aos alunos da Unesp. Ela admite que é muito muito muito difícil ensinar o mandarim aos brasileiros. Como muito muito muito difícil eu achei ensinar o português aos alemães. Na Berlitz de Munique, o método adotado vinha do Rio Grande do Sul, querendo fazer o mundo tutear como só mesmo nos Pampas. E como explicar a sérios empresários alemães que nem eu mesmo dominava aqueles usos e expressões?

Num debate na TV, algo que só me ocorre quando entregue ao desamparo dos hotéis, alguém punha em dúvida a ideia de que no futuro a língua do comércio internacional possa vir a ser o mandarim. Mesmo o inglês, um outro argumentava, que todo mundo diz que fala, na verdade muito poucos sabem de verdade. Tem aquela invenção do vocabulário básico de mil palavras, acrescentava um terceiro, mas mil palavras sempre serão apenas o mínimo necessário à comunicação mais pedestre.

Mas a chuva de sábado último foi mesmo um espanto. Não vi, pois não choveu tanto assim pras bandas do Faveral, onde me escondo, mas pude constatar depois os estragos nos entornos da Rodoviária, aonde fui ter bem depois, ainda a tempo de lá avistar dois repórteres e um fotógrafo deste jornal cuidando da cobertura. A motorista da van, dizem, achou que tudo fosse rua, mas era tudo rio, e lá se foi, entregue à brabeza do Córrego do Ouro, que, depois se soube, também levava, além de tudo o que desde sempre sempre leva, um vazamento químico da Cutrale, estrago provocado pela tempestade. Mas o corpo da forasteira foi ou não foi ainda encontrado? Depende de quem conta. Da rodoviária para o centro, os fatos perderam de lavada para as versões.

Alguém espalhou que metade da rodoviária havia desabado. Era o que se ouvia à farta nos dias seguintes. Sei que uma das pistas ali defronte permanecia interditada até a noite do domingo. De uma das casas acima, o muro do quintal viera abaixo e a lama desandara, tomando conta da pista, arrastando consigo pertences, como o freezer que acabou parado no terreno antes da calçada.
E para que o cronista não continue a pensar que o Twitter foi criado só para que os usuários fiquem reclamando, sem qualquer graça ou criatividade, do calor de Araraquara, eis que nos aparece um tuiteiro dos bons: na foto, Dom_Sergio encara o leitor com ar de filósofo, com direito a cachimbo na boca. Sua postagem é uma espécie de minicrônica, quase o equivalente verbal da charge: "Aliás, vi dois mórmons americanos em Araraquara... branquinhos de tudo. Fico com pena... escaldando-se sob o sol do cerrado". Na Unicamp, em 2010, numa dessas intervenções momentosas, vi alguém falar sobre o Twitter como forma literária. Haja pesquisa!

"E quando eu tiver saído / Para fora do teu círculo / Tempo tempo tempo tempo / Não serei nem terás sido / Tempo tempo tempo tempo... " (Caetano Veloso)

A luta solitária do soldado Yokoi (2)

Quarta, 08 de Fevereiro de 2012 às 03h00

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Quase três décadas depois de terminada a 2ª. Guerra Mundial, o soldado japonês Shoichi Yokoi foi descoberto por dois pescadores na selva de Guam, tendo reagido defensivamente, por ignorar que a guerra houvesse terminado. De volta ao Japão, tanto fascinou as multidões, que o aclamavam como novo herói popular, como despertou repulsa, sobretudo nos jovens e intelectuais, com sua visão arcaica de honra.

Por Christoph Gunkel (Spiegel Online). Tradução/Adaptação: Zé Pedro Antunes (Tribuna Impressa de Araraquara).

Um dia não se passava sem que os jornais noticiassem a seu respeito: 83 dias Yokoi permaneceu num hospital em Tóquio. E a nação inteira se perguntava como lograra, ainda que debilitado, retornar com a saúde praticamente intacta.

De bom grado, ele relatava o que, para ele próprio, havia sido o óbvio. Fazia fogo com a lente de uma lanterna e, depois de tê-la perdido, levava horas a friccionar gravetos. Na época das chuvas, o mais das vezes, não obtinha resultado, só comia alimentos crus: caranguejos de rio, frutos, nozes.

E sobretudo que, em seu exílio voluntário, o tempo adquiriu um novo significado: alfaiate formado, dois anos ele levou para costurar uma calça e uma camisa das fibras delgadas do tronco de uma árvore nativa. Uma tesoura fazia parte do seu equipamento, e agulhas, ele as fabricava de espinhos. No total, três mudas de roupa ele talhara, e até botões e bolsos as jaquetas ostentavam. Meses igualmente foram necessários para, sob um bambuzal, cavar o bem camuflado buraco. Não chegava a um metro de altura, mas era dotado até mesmo de um banheiro.

Diálogo entre guerreiros da selva

Por inacreditável que soe, não foi um caso isolado essa história de vida. Milhares de japoneses, por meses, ou mesmo anos a fio, se mantiveram em regiões distantes do cenário da guerra no Pacífico. Alguns por desconhecimento e medo de serem condenados como desertores, outros por uma compreensão arcaica de honra. Em 1960, responsável pelos desaparecidos de guerra, o Ministério do Bem-Estar Social calculou que aproximadamente 2.370 japoneses conduziam adiante suas guerras particulares. Daí ter o governo lançado sobre as regiões cobertas pela selva panfletos que informavam sobre a capitulação.

Por ser o mais pertinaz desses guerreiros solitários, Yokoi era o mais famoso, ainda que fosse já o terceiro a se esgueirar para fora da jungla. Em 1960, Bunzo Managawa e Tadashi Itoo desistiram de sua prolongada luta. Por algum tempo haviam sido companheiros de Yokoi — até o momento em que julgaram mais seguro dividirem-se em grupos menores. Quando, pouco depois de seu retorno, Yokoi reencontrou Managawa, foi um diálogo insólito que os repórteres puderam testemunhar:

Managawa — Em julho de 1944, o senhor era o meu chefe. Que alegria tornar a encontrá-lo. Onde esteve exatamente?

Yokoi — Ao lado daquela escarpa.

Managawa — Perto daquelas bananeiras?

Yokoi — Justamente.

De volta à vida

Dois anos depois, Yokoi foi banido das manchetes por um seu compatriota que, na ilha vulcânica Lubang, nas Filipinas, por mais tempo ainda seguira lutando: Hiroo Onoda. Nas décadas que se seguiram à guerra, ao menos era o que diziam os nativos, o tenente matara ainda 39 pessoas e ferira outras cem, só desistindo quando, expressamente enviado à ilha, seu ex-comandante ordenou o término da luta.

Quando, sob intensa agitação midiática, Onoda retornou ao Japão, já Yokoi de novo se habituara à civilização, tendo publicado dicas de sobrevivência na selva e oferecido cursos sobre alimentação saudável. Talvez o mais espantoso em sua história seja a capacidade de adaptação que tornou a demonstrar. Apenas seis meses depois de haver retornado, ele se casou, e até a morte, em 1977, desfrutou por 25 anos de uma segunda existência — quase tão longa quanto a que vivera na selva de Guam.

*Zé Pedro Antunes é professor de Literatura Alemã e escreve às quartas-feiras neste espaço

A luta solitária do soldado Yokoi (1)

Quarta, 01 de Fevereiro de 2012 às 03h00

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Por Christoph Gunkel (Spiegel Online). Tradução/condensação: Zé Pedro Antunes (Tribuna Impressa de Araraquara)

Por quase três décadas, ele se refugiara na selva de Guam. Comia caracóis, rãs, pássaros e ratos (fígado de rato era uma pequena iguaria). Ao anoitecer, saía à caça; passava o dia num buraco de dois metros por quatro que levara meses escavando. Para não enlouquecer, às vezes cantarolava. Há uma eternidade não via pessoa. Os amigos, a família, todos, já em 1944, davam-no por morto. Mas no dia 24 de janeiro de 1972 soube-se que fora descoberto por dois pescadores — que, como ele, andavam à caça de caranguejos de rio — e tirado da selva.

"Fico profundamente envergonhado de ter voltado vivo", declarou quando de sua chegada ao Japão. A frase, que fez dele uma celebridade mundial instantânea, tanto fascinou como causou repulsa aos compatriotas. Mentalmente, ele continuava na década de 1940. À época, com a 2ª Guerra Mundial em curso, ele era sargento da 29ª. Divisão da Manchúria, unidade de elite japonesa instalada na longínqua ilha do Pacífico em 1943. Mas enquanto os americanos assumiam o controle da ilha, depois de meses de intensos combates, e cerca de 22 mil japoneses pereciam ou caíam prisioneiros, ele e alguns camaradas se refugiaram na floresta.

Claro, lutariam até o fim, buscariam na luta a morte honrosa — só não fariam entregar-se. Ser aprisionado vivo era uma vergonha: traição à pátria. Tanto internalizara os valores militares, que a eles se manteve apegado ainda décadas depois de findo o conflito e de ter capitulado o exército imperial.

De volta para o futuro

Desistir nunca fora uma opção. Mesmo em 1952, quando encontrou um panfleto que informava sobre o término da guerra. Ou em 1964, quando seus últimos dois camaradas morreram de fome e ele ficou sozinho. Em 1972, surpreendido pelos pescadores, chegou a atacá-los. Eram os primeiros semelhantes que via em anos. Mas depois de tão longa estada na selva, com 56 anos, estava debilitado, pode ser dominado com rapidez.

Poucas semanas depois, eis que aterrissava num mundo desconhecido. Foi um choque de culturas. De um lado, o soldado em posição de sentido, condenado a uma arcaica concepção militar do mundo; do outro, um Japão em pleno boom econômico, cintilante, o país dos carros acessíveis e das televisões modernas — técnica que o retornado desconhecia. E ele insistia: o Japão só perdera a guerra devido à "inferioridade material". Em uma "nova guerra", com seus conhecimentos da vida na selva, ele daria valiosas sugestões. Não se conformava com o fato de o imperador, a quem oferecera seus serviços "por toda a eternidade", não ser mais venerado como Deus. As fotos do imperador nas revistas, ao lado de mulheres sumariamente vestidas: uma "desonra".

Uma desonra, uma vergonha, no entanto, sobretudo para os mais jovens e intelectuais, era o que dizia o "louco de Guam". Que, ademais, recebia o aplauso dos nacionalistas conservadores. Porém, embates ideológicos à parte, muitos admiravam-no por ter feito coisas quase sobre-humanas. Agitando bandeiras do país, 5 mil japoneses esperavam pelo herói no aeroporto de Tóquio. Com transmissão ao vivo em cadeia nacional, as ruas ficaram desertas: 70 milhões de pessoas fascinadas diante de suas tevês — superando até mesmo o famoso passeio de Neil Armstrong na lua dois anos antes.

Em poucas semanas, os japoneses desembolsaram, em cálculos atuais, mais ou menos 100 mil euros em favor do despossuído, que nem sequer ficou a salvo de propostas de casamento. Quando de sua entrada em Nagoia, a aldeia natal, onde, vivo, restara apenas um sobrinho de sua mãe, 2 mil pessoas formavam alas à sua passagem. No cemitério local, sobre a lápide castigada pelo tempo, ele pode constatar pessoalmente: "Shoichi Yokoi, morto em 1944, em Guam".

(continua)

*Zé Pedro Antunes é professor de Literatura Alemã e escreve às quartas-feiras neste espaço

Crise econômica: ‘Os americanos estão gordos e cansados’

Quarta, 25 de Janeiro de 2012 às 03h00

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Os melhores tempos dos EUA ficaram para trás, diz o romancista Gary Shteyngart. O país pode até mesmo regredir ao nível de um país em desenvolvimento. Traduzido do inglês para o alemão por Thomas Fischermann (Die Zeit / Hamburgo) e do alemão para o brasileiro por Zé Pedro Antunes (Tribuna Impressa / Araraquara).

ZEIT — No recém-lançado "Super Sad True Love Story", o senhor prenuncia tempos difíceis para os EUA. Economia no chão. Política inviável. Potência mundial em frangalhos.
Shteyngart — E não esquecer: No livro, os jeans transparentes desempenham um papel. Sabe de uma coisa? Dois meses depois da publicação, eles chegaram ao mercado.

Agora, falando sério, acredita mesmo que essas suas predições se tornarão realidade?
É só prestar bem atenção. Na China e na Índia, vivem bilhões de pessoas mais afeitas ao trabalho pesado que os americanos. São pessoas instruídas e dispostas a abraçar as tarefas que lhes forem atribuídas. Já os americanos estão gordos e cansados.

Numa comparação em termos mundiais, os americanos na verdade trabalham ainda consideravelmente bastante.
Talvez mais do que os gregos, mas os chineses, esses ainda trabalham muito mais pesado. Não estamos habituados a tal concorrência. É simplesmente messiânica a crença que depositamos em nossas capacidades.

O senhor não tem essa crença?
Seja como for, os EUA vão se tornar um país muito mais pobre. A Argentina é um bom exemplo de como um país cheio de recursos, com uma classe média abastada, pode sofrer uma regressão tão profunda. Nós também poderíamos regredir ao status de país em desenvolvimento.

O que, na verdade, é difícil de imaginar...
Difícil? Hoje é impossível viajar de Nova York ao aeroporto sem contar centenas de buracos na pista. E quando se está no aeroporto, parece um edifício qualquer em Burkina Faso. Basta comparar os EUA de hoje com o país que um dia venceu a corrida à lua. Pode imaginar que ainda tornaremos a voar para lá?

Para as massas de migrantes — e delas o senhor também faz parte! —, o poder de irradiação dos EUA parece não ter diminuído. Os EUA continuam a ser uma terra de sonhos para quem pretende fazer algo na vida.
Mas não sabemos se vão continuar sendo. Ao longo da recessão, muitos imigrantes latino-americanos retornaram a seus países. E quem sabe? Pode ser que um dia cidadãos americanos deixem o país, se mudem para a China e fundem Americatowns no centro das cidades [NdT: chamam-se Chinatowns os bairros chineses em cidades americanas].

O poder de atração dos EUA tem sido tão grande, até aqui, porque muitos têm em mente o país da criatividade sem limites.
É verdade, atrair cabeças criativas é algo que os EUA seguem fazendo ainda de modo extraordinário. Tem a ver com a língua, com as excelentes universidades.

Então, convenhamos, todavia há esperança para os EUA.
Sim, mas também há problemas. Quando a economia americana ainda era suportada pela indústria, os operário, no país inteiro, puderam ascender à classe média, mandar seus filhos às escolas superiores, adquirir carro novo. Mas hoje, em tempos de "economia criativa", falamos sobre uma ínfima classe de pessoas que vivem em São Francisco e Nova York — e o que essas pessoas fazem, infelizmente, de modo algum tem reflexos sobre a classe média. Mesmo os iPhones, que essas pessoas inventam, vão acabar sendo produzidos na China.


P. S.: Nascido em Leningrado (que foi e voltou a ser São Petersburgo), Gary Shteyngart vive como escritor em Nova York. O romance "Super Sad True Love Story" se passa num futuro próximo, com os EUA em colapso econômico e, do ponto de vista político, como potência mundial decadente.

*Zé Pedro Antunes é professor de Literatura Alemã e escreve às quartas