Com um título desses, nem precisava de artigo, não é mesmo? Ao traduzi-lo, eu ainda não tinha lido "Conversas com Woody Allen", saboroso volume com as entrevistas que Eric Lax fez com o cineasta ao longo de 43 anos, vale dizer, 43 filmes. Juntam-se aqui o artigo (Süddeutsche Zeitung, 22/12/2011) e apontamentos da leitura referida.
"Nero Fiddled", o novo filme de Woody Allen, deve chegar às telas em meados de 2012. Desde "Scoop" (2006), o diretor não ocupava mais a frente das câmeras, o fará em um dos episódios. Tendo trabalhado em Londres ("Match Point"), Barcelona ("Vicki Cristina Barcelona") e Paris ("Meia-Noite em Paris") nos últimos três anos, Roma foi desta vez o cenário escolhido.
Como em quase todas as suas produções, o novo filme traz um elenco estelar — entre eles, Alec Baldwin, Roberto Benigni, Penelope Cruz, Jesse Eisenberg e Ellen Page. Com a pretensão de fazer uma adaptação livre de "O Decamerão", de Giovanni Boccaccio, o filme originalmente deveria se chamar "The Bop Decameron", com as histórias contadas pelo poeta medieval italiano devendo merecer uma leitura moderna.
Tê-lo rebatizado como "Nero Fiddled" significa, na verdade, um abandono da ideia inicial. "Difícil acreditar que até mesmo em Roma tão poucas pessoas conheçam o livro de Boccaccio, declarou recentemente o cineasta à revista americana Entertainment Weekly.
Em tempo, pela caracterização dos excessos da vida dos clérigos, bem como pelas passagens eróticas de sua obra, o escritor, que viveu no século 14, sofreu enérgica rejeição por parte da Igreja.
A nova comédia é dividida em quatro episódios, independentes, dois deles protagonizados por italianos e os outros dois, por americanos.
O primeiro gira em torno de um marido (Woody Allen) e sua esposa (Judy Davis), que viajam a Roma para encontrar a família do futuro genro. O segundo tem Roberto Benigni no papel de um homem chamado Leopoldo, que, em decorrência de algumas confusões, é tomado por um astro de cinema e passa a viver inúmeras situações ambíguas. No terceiro, para encontrar-se com amigos, um arquiteto americano viaja às margens do Tibre. No último episódio, um homem (Alessandro Tiberi) e uma mulher (Alessandra Mastroni) chegam a Roma para visitar parentes e perdem-se pela Cidade Eterna.
O próximo projeto do cineasta terá como cenário uma metrópole alemã: Munique, conforme noticiava há alguns meses a revista Focus. Para Woody Allen: "Munique é uma cidade maravilhosa, muito culta e sofisticada, a comida é boa, a cerveja é boa — nela eu passaria alguns meses filmando com imenso prazer." Previsão para o início das filmagens: verão europeu de 2012.
Apontamentos de Leitura
Woody Allen começa escrevendo piadas para artistas de "stand up" e agências diversas. Em 2 anos, terá escrito cerca de 20 mil piadas.
Depois, ele próprio chega aos palcos, à Broadway (autor de peças cômicas) e ao cinema (pontas em filmes que abomina, como "Cassino Royale" de John Huston).
Ao assumir a direção, faz "filmes com piada atrás de piada", como ele define. Mas desde sempre ambicionou fazer filmes sérios. É notório seu apreço pelo cinema de Ingmar Bergman.
Sua lista dos melhores filmes de todos tempos é sua lista dos melhores filmes europeus de todos os tempos, mais três produções do japonês Akira Kurosawa. Ah, e um único filme americano: "Cidadão Kane".
Aos poucos deixa de lado a obrigação de ser sempre o protagonista, e de ser sempre engraçado. Considera-se limitado como ator. Dos filmes cômicos, elege "Um estranho assassinato em Manhattan" (que foi uma de suas peças de sucesso na Broadway). Dos filmes sérios, "Match Point" é um ponto de chegada.
Não julga ter prestado grande contribuição ao cinema. Quando não está filmando, ou está na sala de montagem, ou está escrevendo. Se deixasse de fazer filmes, nenhum problema, continuaria a ser o que sempre foi: escritor.
*Zé Pedro Antunes é professor de Literatura Alemã e escreve às quartas-feiras neste espaço
