Conversar com o desenhista Sebastião Rodrigues Seabra é no mínimo uma experiência curiosa, divertida e bastante crítica. Seabra é daqueles artistas reconhecidos pelo talento, com ampla experiência no mercado brasileiro do gênero, apaixonado por super-heróis, mas que há muito tempo ganha a vida com a produção de quadrinhos eróticos, em meio a outros trabalhos.
Sua história com as HQs começou na infância, em Araraquara, quando conheceu Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko. Até então, Seabra tinha lido apenas O Fantasma, da Rio Gráfica Editora, e O Zorro, da EBAL. Foi somente no final dos anos 1960 que chegaram o Homem-Aranha, Demolidor e Quarteto Fantástico. Publicações que faziam a festa das crianças da época.
Aos 11 anos, Seabra mudou-se com a família para São Paulo, sem a menor ideia de que as histórias em quadrinhos que tanto gostava de ler iria se tornar, em pouco tempo, sua profissão. Com 15 anos, em 1979, começou a produzir os primeiros desenhos para o jornal Folha de São Paulo. "Se não me engano, o primeiro trabalho foi uma sátira do primeiro filme dos Trapalhões, que saiu num suplemento de quadrinho que o jornal tinha na época", relembra o araraquarense.
Da Folha de São Paulo, o desenhista foi para o jornal Notícias Populares, onde ficou cinco anos desenhando tiras diárias de humor, aventura e uma novela em quadrinhos.
"Eu era um menino, e demorei um ano para entregar a primeira novela porque eu não sabia desenhar mulher e nem contar história para adultos", recorda.
Em 1978, Seabra começou a desenhar o Zorro, para a Ebal do Rio de Janeiro, e quando caiu a censura foi contratado pela curitibana Grafipar, que produzia quadrinhos eróticos. "Um filão que não existia aqui no Brasil por conta da censura", explica o desenhista.
Além dos eróticos, ele fez também quadrinhos de aventura junto à mesma editora. "Naquela época, início nos anos 1980, o mercado de HQs deu uma movimentada, mas mesmo assim, nunca foi algo levado a sério no sentido de garantir um produto nas bancas, com periodicidade regular, produção e qualidade mínimas. Além de pagar pelo profissional de HQ".
Caminho de volta
Em 1983, Sebastião Seabra voltou para Araraquara, de onde continuou produzindo quadrinhos, principalmente os de aventura, para editoras pequenas de São Paulo. Paralelamente, produzia para editoras de livros didáticos e agências de publicidade; e começou a fazer página de quadrinhos e charges políticas em jornais da cidade.
Na década de 1990, ele escreveu e desenhou para algumas editoras europeias. "Uma época excelente que o Collor assassinou porque ganhávamos em dólar", opina o desenhista.
Com o tempo, o trabalho de Seabra foi se voltando para o quadrinho de traço realista, com foco no terror, super-heróis, aventura e erótico que, segundo o ele, ainda tem um mercado resistente no país.
"Não tenho nenhum problema em fazer desenhos eróticos. Hoje em dia, quem me encomenda este tipo de trabalho são sites e eu nem divulgo porque as pessoas que apreciam meu trabalho são admiradores dos quadrinhos de heróis", entrega.
"No erótico não há o movimento maravilhoso de linhas e o grafismo sem par das HQs de super-heróis. É um gênero limitado, que eu continuo a fazer porque me convidam", completa.
