"Vejam meninos, vejam crianças, deixem as visitas entrar." Foi segurando seus mais de 200 "filhos" que Dona Beth abriu o portão de sua chácara para receber a equipe de reportagem da Tribuna Impressa. Elisabeth Aparecida Câmara é comissária de bordo aposentada, mas sua verdadeira vocação é amar os animais. Ela cria, atualmente, 140 cães e 68 gatos com um carinho fora do comum e dedicação de cerca de oito horas por dia. "Eu sempre gostei muito de animais, mas nunca imaginei que fosse tomar uma proporção dessas."
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A paixão começou quando ela fazia trabalhos voluntários e criava alguns cachorros em aeroportos de São Paulo, onde trabalhava. Depois de aposentada, trouxe todos para Araraquara por medo de não darem continuidade ao seu trabalho na Capital e a história não parou mais. "Já fazem parte da minha vida, são todos meus filhos."
Os animais que trouxe de São Paulo, Dona Beth uniu a outros que tinha por aqui e ficavam em um pesqueiro, e aos que passou a recolher, abandonados na rua. Mas, segundo ela, o que fez o número crescer de verdade foram os abandonos em sua porta. "Mesmo que eu não pegasse mais da rua, o que abandonaram aqui foi demais."
E esse abandono é o que corta o coração dessa mulher apaixonada por animais. Por diversas vezes, ela foi chamada pelas vizinhas para recolher algum cão deixado em sua porta. "Eram ninhadas, cadelas prenhas, adultos, machucados, doentes... Amarravam no sol sem se preocupar se eu viria logo ou não." Outro desafio era domar os mais bravos, que não deixavam ninguém chegar perto, como foi o caso do cão Rex.
Por mais duvidoso que isso pareça, cada um dos 140 cachorros de Dona Beth tem nome. "Os gatinhos não, ainda devo isso a eles", justifica-se. Mesmo assumindo que algumas vezes se confunde, ela garante que é normal "como acontece com as mães com os filhos em casa, que trocam os nomes, mas logo se corrigem".
Além dos nomes, cada animal tem sua história e, questionada se também sabe de cor cada uma dela, Dona Beth se mostra orgulhosa da própria memória, sinônimo de carinho e dedicação aos bichinhos. "Sim, de todos eles! Todos têm uma história e eu sei cada uma, dá para escrever um livro."
Doação
Apesar da quantidade de animais acolhidos na chácara, Dona Beth garante que só doa quando são filhotes. "Parece que não gosto daquele que estou doando, meu coração fica apertado. É como se você doasse um filho e ainda tivesse que escolher... Qual você doa? É difícil", desabafa. "Se a pessoa quer ajudar, ajude com ração. Eu fico com o trabalho de cuidar deles. Prefiro assim."
Outro motivo para ficar com os animais depois de grandes é o grande número de devoluções. Segundo ela, na chácara há mais de 20 animais que foram doados e devolvidos, cada um por um motivo diferente. "A pessoa acha que é pequeno e bonitinho, mas depois cresce muito, faz buraco na parede ou não pode mudar para apartamento. As desculpas são as mais variadas e eu acabo aceitando de volta."
‘As contas vão ficando, a ração deles não’
Quem conhece a história de Dona Beth se emociona porque ninguém faz ideia das dificuldades que ela enfrenta para cuidar de tantos bichos, todos abandonados à própria sorte. Para tratar de toda essa "família", ela gasta mais de dois terços de sua aposentadoria e nem sempre é suficiente. "As minhas contas estão todas atrasadas, está difícil para manter em função do alimento deles, que eu não posso deixar de fornecer." Há algumas semanas, ela precisou recorrer aos meios de comunicação para pedir ajuda, pois com os boletos atrasados, a empresa fornecedora de ração deixou de atendê-la. "Eu estava aos prantos porque só tinha comida para mais dois dias, mas graças à população e à solidariedade das pessoas, consegui resolver a situação." Dona Beth continua precisando de ração e de outros tipos de ajuda. O telefone de contato é (16) 9135-8066.
Conheça alguns bichinhos

Flor - A cadela tem sua casa sobre um tablado, não costuma descer de lá e não é qualquer cachorro que pode subir

Rex - O vira-lata foi amarrado no portão da chácara e permaneceu lá por 15 dias, pois era muito bravo e não deixava ninguém chegar perto. Água e comida eram colocadas de longe e empurradas com vassoura, até Dona Beth conquistar sua amizade

Xande - O gato mia o dia todo e nenhum dos sete veterinários que o atenderam conseguiu descobrir o motivo. Xande já passou por várias casas, mas por problemas de convivência, foi rejeitado. Na chácara, ele tem um gatil exclusivo, porque não se relaciona bem nem com os cachorros nem com os outros gatos

Dara - A cachorra tem alguns problemas de saúde, mas seu maior sofrimento é ser rejeitada pelos outros cães, sem motivo aparente. Segundo Dona Beth, ela não é chata, mas os outros animais sempre implicam
